O presidente do Governo das Canárias, Fernando Clavijo, manifestou nesta quarta-feira, 6 de maio, uma oposição frontal à decisão de Madrid de permitir que o navio de cruzeiro Hondius, onde foi identificado um surto de hantavírus, atraque no arquipélago. A determinação do governo espanhol, anunciada na terça-feira, previa a chegada da embarcação em um prazo de três a quatro dias, seguindo protocolos da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC).
Clavijo classificou a medida como uma falha de comunicação e deslealdade institucional, exigindo uma reunião urgente com o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez. Segundo o líder regional, a decisão carece de critérios técnicos sólidos e informações suficientes para assegurar a proteção da população local. “Não posso permitir que entre nas Canárias”, afirmou Clavijo, reforçando que a ministra da Saúde, Mónica García, não apresentou explicações detalhadas sobre os protocolos de segurança adotados.
Risco biológico e a estirpe andina
A preocupação das autoridades locais ganha contornos mais graves devido à natureza do patógeno identificado a bordo. O ministro da Saúde sul-africano, Aaron Motsoaledi, confirmou em comissão parlamentar que os testes apontam para a estirpe andina do hantavírus. Esta variante é a única, entre as 38 conhecidas, capaz de ser transmitida diretamente entre seres humanos, o que eleva o nível de alerta sanitário.
O surto, que já resultou em três mortes confirmadas pela OMS, manifestou-se inicialmente com quadros de febre e sintomas gastrointestinais, evoluindo rapidamente para pneumonia, síndrome respiratória aguda e choque. Dois passageiros foram transferidos para Joanesburgo, onde um deles veio a falecer e o outro permanece sob cuidados hospitalares. A embarcação, que transporta 149 pessoas de 23 nacionalidades, incluindo um membro da tripulação de nacionalidade portuguesa, tornou-se o epicentro de uma crise diplomática e sanitária.
O dilema humanitário e a logística de contenção
O Ministério da Saúde espanhol defende a recepção do navio sob o argumento de dever humanitário e legal, destacando a presença de cidadãos espanhóis entre os ocupantes. A pasta assegura que o porto de destino ainda não foi definido e que, uma vez em solo espanhol, passageiros e tripulantes serão submetidos a exames rigorosos, com transferências realizadas em veículos especiais que evitarão qualquer contato com a população local.
Apesar da garantia de isolamento total, a resistência das autoridades das Canárias reflete o temor de uma falha nos protocolos de contenção. A OMS, embora avalie o risco para a população global como baixo, reconhece que Cabo Verde não dispõe das capacidades necessárias para gerir a operação, apontando as Canárias como o ponto mais próximo com infraestrutura adequada para prestar a assistência médica exigida pelo cenário atual.
Monitoramento e desdobramentos
Enquanto o impasse político entre o governo regional e o central persiste, a situação epidemiológica segue sob vigilância internacional. A Direção-Geral da Saúde (DGS) de Portugal, assim como outros órgãos europeus, monitora os desdobramentos, mantendo a classificação de risco como baixa para o território nacional. A trajetória do Hondius, que partiu de Ushuaia em 20 de março, permanece sob escrutínio enquanto as negociações sobre o local de desembarque definitivo avançam sob pressão.
O Mais 1 Portugal continuará acompanhando o desenrolar deste caso, trazendo atualizações sobre as decisões das autoridades espanholas e o estado de saúde dos passageiros. Mantenha-se informado através do nosso portal, onde priorizamos a notícia com contexto, credibilidade e compromisso com a verdade dos fatos.