Um ofício que resiste ao tempo no coração do Porto
No icónico Mercado do Bolhão, no Porto, o som de uma flauta de pan corta o burburinho diário, anunciando a presença de uma das profissões mais antigas e ameaçadas de Portugal. André Fernandes, aos 37 anos, é a face visível desta tradição. Recentemente, o seu trabalho recebeu um reconhecimento fundamental: a candidatura do ofício de amolador à Rede Nacional do Património Cultural Imaterial foi oficialmente aceite, um passo decisivo para salvaguardar uma arte que, durante décadas, percorreu as ruas do país em bicicletas equipadas com mós.
A notícia, recebida há cerca de uma semana, não é apenas um marco pessoal para o artesão, mas uma vitória para a memória coletiva da cidade. André, que representa a terceira geração de uma linhagem dedicada ao corte e ao fio, encontrou na sua banca, situada na rua do Paraíso do Mercado do Bolhão, um palco para manter viva uma herança que começou com o seu avô e foi consolidada pelo seu pai.
A preservação de uma identidade cultural
A iniciativa de formalizar o ofício perante as autoridades culturais partiu de Susana Monteiro, esposa de André. O casal compreendeu que, para além da prestação de serviços, a profissão carrega um valor histórico inestimável. “Eu assumi e agarrei essa vontade. A minha profissão está em vias de extinção e eu quero deixar uma marca”, afirma André. A aceitação na Rede Nacional do Património Cultural Imaterial abre portas para que o saber-fazer dos amoladores seja preservado, podendo culminar, futuramente, na criação de um museu dedicado ao tema na cidade.
Para os visitantes, a banca é uma paragem obrigatória. É comum ver turistas, como o jovem Yan, de 11 anos, natural do Recife, observarem fascinados as faíscas cor de laranja que saltam da mó. Este espetáculo visual, que André domina com a mestria de quem aprendeu a observar o pai aos 10 anos, é o que mantém viva a curiosidade de novas gerações, transformando o trabalho técnico em performance cultural.
Diversificação e a marca André, o amolador
Embora a tradição seja o pilar, o negócio adaptou-se aos tempos modernos. Sob a marca certificada “André, o amolador”, criada em 2020, o artesão expandiu o seu leque de serviços. Hoje, a sua oficina não se limita a facas e tesouras; ali afiam-se desde lâminas de robots de cozinha, como a Bimby, até alicates de manicure e ferramentas de jardinagem. Além disso, o artesão é reconhecido pelo restauro de guarda-chuvas, recebendo peças de todo o país e até do estrangeiro, como um exemplar recente vindo de França.
A banca funciona também como um pequeno museu vivo. Nas paredes, uma linha do tempo documenta a trajetória da família, com recortes de jornais antigos, como uma entrevista do avô ao jornal Comércio do Porto em 1985, e fotografias do pai em viagem pelo país. Esta conexão com o passado é complementada pela vertente pedagógica: André promove workshops onde turistas de várias partes do mundo, como Porto Rico e Japão, podem aprender a conceber a sua própria faca artesanal.
O futuro de uma linhagem artesanal
Apesar de ser o guardião de uma tradição, André Fernandes mantém uma postura pragmática quanto ao futuro dos seus filhos, Miriam, de 11 anos, e Frederico, de 5. Embora a possibilidade de uma quarta geração de amoladores esteja no horizonte, o artesão prioriza a liberdade de escolha dos mais novos. A sua missão, contudo, já está cumprida: ao garantir o reconhecimento oficial da profissão, ele assegura que o legado da família e a memória portuense não se percam no esquecimento.
O trabalho de André Fernandes no Bolhão é um exemplo de como a tradição pode coexistir com a modernidade, mantendo a relevância social e cultural. Para continuar a acompanhar histórias sobre o património, a cultura e a vida em Portugal, convidamos os nossos leitores a seguir o portal Mais 1 Portugal, onde a informação de qualidade e o contexto são sempre a nossa prioridade.
Saiba mais sobre o trabalho de artesãos portugueses em Lusa.