Importações de gás natural russo pela União Europeia atingem maior nível desde 2022

Importações de gás natural russo pela União Europeia atingem maior nível desde 2022

As exportações de gás natural liquefeito (GNL) da Rússia para a União Europeia (UE) registraram, no primeiro trimestre de 2026, o maior volume desde o início do conflito na Ucrânia, em 2022. O dado, revelado por um novo relatório do Instituto de Economia Energética e Análise Financeira (IEEFA), expõe as contradições da estratégia energética do bloco europeu, que busca reduzir a dependência de Moscou enquanto enfrenta instabilidades globais no fornecimento de hidrocarbonetos.

O estudo aponta que, apesar das sanções e do objetivo declarado de eliminar as compras de gás russo até o outono de 2027, o fluxo comercial permanece resiliente. A necessidade de suprir a demanda interna, somada às tensões geopolíticas no Oriente Médio, tem mantido a Rússia como um dos pilares do abastecimento europeu, desafiando as metas de diversificação estabelecidas por Bruxelas.

O papel dos grandes importadores europeus

O aumento das importações de GNL russo no primeiro trimestre de 2026 foi de 16% na comparação homóloga, totalizando 6,9 mil milhões de metros cúbicos. Este crescimento foi impulsionado principalmente pela demanda vinda da França, Espanha e Bélgica. A França, inclusive, destacou-se como o maior importador europeu de GNL russo no período, registrando um volume recorde em janeiro.

A tendência de alta não se limitou aos primeiros três meses do ano. Em abril de 2026, os dados mostraram uma continuidade no movimento de compra, com um incremento de 17% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Esse cenário ocorre em um momento em que a Comissão Europeia tenta, simultaneamente, privar o Kremlin de recursos financeiros provenientes da energia e garantir que o continente não sofra com desabastecimento.

A dependência do GNL e a fragilidade estratégica

Desde a invasão da Ucrânia, a União Europeia promoveu uma transição forçada: o gás que antes chegava via gasodutos foi substituído, em grande parte, pelo GNL. Contudo, analistas alertam que essa mudança criou novas vulnerabilidades. Segundo Ana Maria Jaller-Makarewicz, analista do IEEFA, o GNL tornou-se o “calcanhar de Aquiles” da segurança energética europeia, expondo o bloco a preços voláteis e riscos de interrupção logística.

O plano de diversificação, que visava maior segurança, tem enfrentado obstáculos. Com a instabilidade no Oriente Médio, a dependência em relação a outros fornecedores, como os Estados Unidos, aumentou drasticamente. Estima-se que os EUA estejam a caminho de se tornarem o principal fornecedor de gás do continente até 2026, podendo chegar a 80% das importações de GNL da UE até 2028, o que gera novos debates sobre soberania energética.

O cenário atual de fornecimento

Atualmente, a matriz de suprimento da União Europeia é composta por uma mistura de origens. A Noruega mantém a liderança como principal fornecedora, detendo 31% da quota de mercado. Os Estados Unidos ocupam a segunda posição, com 28%, seguidos pela Rússia, que, apesar das restrições, ainda responde por 14% do total de importações, considerando tanto o gás transportado por gasodutos quanto o GNL.

O desafio para os próximos meses permanece complexo. Enquanto a UE tenta acelerar a transição para fontes renováveis e reduzir o consumo fóssil, a realidade do mercado global impõe uma dependência persistente dos combustíveis fósseis. O acompanhamento dessas movimentações é essencial para compreender os impactos econômicos e políticos que moldarão o futuro do continente.

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