Crise na Bolívia: bloqueios e pressão popular marcam governo de Rodrigo Paz

Reuters/Claudia Morales/Arquivo/Proibida reprodução

O cenário de instabilidade em La Paz

A Bolívia atravessa um momento de profunda instabilidade social e política. A capital, La Paz, enfrenta uma série de bloqueios em suas principais vias de acesso, um movimento que desafia diretamente a gestão do presidente Rodrigo Paz. O mandatário assumiu o poder há apenas seis meses, rompendo um ciclo de quase duas décadas de hegemonia da esquerda no país andino, e agora lida com uma pressão crescente que vai além das pautas econômicas iniciais.

O epicentro da revolta foi a promulgação da Lei 1.720, aprovada pelo Parlamento em março e sancionada em 10 de abril. A norma buscava facilitar a conversão de pequenas propriedades em médias, permitindo que proprietários tivessem acesso a linhas de crédito. Enquanto o governo de Paz argumentava que a medida era essencial para reativar a economia e combater a escassez de dólares, movimentos indígenas e campesinos enxergaram na lei uma ameaça à integridade das terras coletivas e um risco de desalojamento por especulação imobiliária.

A força da mobilização popular

O que começou como uma resistência pontual contra a legislação fundiária transformou-se em um movimento de massas. Durante quase 30 dias, manifestantes percorreram mais de 400 quilômetros em marchas que partiram das regiões amazônicas de Pando e Beni em direção à capital. A adesão de setores estratégicos, como professores e mineiros, amplificou o alcance dos protestos, culminando em uma greve geral por tempo indeterminado convocada pela Central Operária Boliviana (COB).

A pesquisadora Alina Ribeiro, doutoranda em ciência política na USP, destaca que os bloqueios de estradas são uma ferramenta de pressão política extremamente eficaz na Bolívia. Como a logística do país depende fortemente dessas rotas, o isolamento de La Paz interrompe o fluxo de alimentos e recursos, forçando o governo a buscar canais de negociação com as lideranças dos movimentos sociais.

Revogação e desconfiança

Diante do agravamento da crise, o presidente Rodrigo Paz anunciou, em 12 de maio, a revogação da Lei 1.720. O governo estabeleceu um prazo de 60 dias para que o Parlamento debata um novo texto, em um processo que promete ser marcado por consultas públicas. Contudo, a medida foi recebida com ceticismo pelas lideranças sindicais.

Humberto Claros, dirigente da Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB), classificou a revogação como uma trégua temporária. O temor dos manifestantes é que o governo utilize esse intervalo para articular uma nova legislação que favoreça interesses patronais, mantendo o risco de grilagem e desintegração dos territórios comunitários originários.

Polarização e acusações cruzadas

O ambiente político tornou-se ainda mais hostil com a troca de acusações entre o governo e a oposição. Rodrigo Paz tem elevado o tom, acusando os manifestantes de tentarem desestabilizar a democracia e sugerindo, sem apresentar provas, que os atos seriam financiados pelo narcotráfico. O ex-presidente Evo Morales também foi citado pelo atual governo como uma figura influente por trás dos protestos.

Por sua vez, Morales nega qualquer articulação e denuncia um suposto plano do governo, com apoio dos Estados Unidos, para persegui-lo. Enquanto o Palácio do governo insiste na retórica de defesa da ordem democrática, as ruas permanecem tensas, com a COB mantendo suas exigências, que incluem um reajuste de 20% no salário mínimo e a proteção efetiva das terras camponesas.

O desfecho desta crise permanece incerto, refletindo as profundas divisões que ainda permeiam a sociedade boliviana. Para acompanhar os próximos capítulos deste cenário complexo e outras notícias relevantes da América Latina e do mundo, continue conectado ao Mais 1 Portugal, seu portal de referência para uma informação contextualizada e de qualidade.

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