Além do peso: especialistas propõem nova linguagem para combater estigma da obesidade

Além do peso: especialistas propõem nova linguagem para combater estigma da obesidade

A forma como a sociedade e, em particular, os meios de comunicação e profissionais de saúde abordam a obesidade está sob escrutínio. Em um movimento crucial para desconstruir preconceitos e promover uma visão mais humana e cientificamente embasada, especialistas e associações de pessoas que vivem com a condição lançaram um apelo por uma mudança radical na comunicação. O objetivo é combater o estigma e a discriminação que há décadas cercam a obesidade, reconhecendo-a como uma doença crônica multifatorial e não como uma falha individual.

A iniciativa ganhou destaque com o lançamento do guia “As palavras pesam – Como falar de obesidade”, uma colaboração entre a Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO), a Associação Portuguesa de Pessoas que Vivem com Obesidade (ADEXO) e a Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil. Divulgado por ocasião do Dia Nacional da Luta contra a Obesidade, o documento serve como um farol de recomendações para uma ampla gama de atores sociais, desde profissionais de saúde e instituições acadêmicas até entidades governamentais e, crucialmente, a comunicação social.

O peso das palavras: um guia para a comunicação sobre obesidade

O guia “As palavras pesam” é um manifesto pela dignidade e pelo rigor científico. Ele advoga por uma linguagem centrada na pessoa, que seja isenta de juízos críticos, atribuições de culpa, rótulos depreciativos e simplificações reducionistas. A recomendação clara é privilegiar expressões como “pessoa que vive com obesidade” em detrimento de “pessoa obesa”, uma distinção sutil, mas poderosa, que coloca a pessoa à frente da doença.

Além disso, o documento enfatiza a necessidade de reconhecer a obesidade como uma doença crônica e multifatorial, rechaçando a ideia de que ela seja meramente o resultado de escolhas individuais. A valorização do esforço contínuo associado à mudança de comportamentos é outro ponto crucial, mesmo quando os resultados não são imediatos ou visíveis, reforçando a complexidade do processo. A linguagem pejorativa sobre o tamanho, peso ou a relação com a comida deve ser veementemente evitada, assim como termos como “luta contra a obesidade” ou “vencer a obesidade”, que podem infantilizar ou patologizar a experiência do indivíduo. Classificações como “obesidade mórbida” e imagens estereotipadas, que retratam pessoas com obesidade como sedentárias, tristes ou inerentemente pouco saudáveis, também são desaconselhadas.

Desmistificando a obesidade: da biologia ao preconceito social

Carlos Oliveira, presidente da ADEXO, expressou em declarações à agência Lusa sua preocupação com a forma como a obesidade é frequentemente retratada pela mídia. Ele criticou a predominância de uma comunicação negativa, que muitas vezes recorre a imagens clichês, como “um hambúrguer ou um meio corpo muito gordo”, que, segundo ele, não refletem a realidade multifacetada das pessoas que vivem com obesidade. “As pessoas com obesidade têm vidas, fazem coisas, não são assim. E é muito importante desmistificar isto e mostrar de forma positiva aquilo que é a vida destas pessoas”, salientou Oliveira.

Ele também destacou a dimensão biológica da doença, explicando que a obesidade é um problema onde “a grande maioria dos doentes são resistentes à leptina e não conseguem queimar gordura”. Essa resistência, que leva o cérebro a induzir a ingestão alimentar para garantir energia e sobrevivência, transforma a obesidade em uma questão biológica, e não meramente comportamental. Questionando a lógica de “afundar ainda mais estas pessoas” com discursos estigmatizantes, Oliveira reforça a urgência de uma compreensão mais profunda.

José Silva Nunes, presidente da SPEO, corroborou essa visão, apontando que a sociedade ainda associa a obesidade à falta de força de vontade, ignorando sua natureza neurobiológica, genética, crônica e de “complexidade extrema”. Ele defende que essa percepção, intrincada ao longo de décadas, precisa ser desconstruída, e a comunicação social tem um papel vital em alinhar a narrativa com a evidência científica atual.

Impacto do estigma: a luta diária de quem vive com obesidade

A persistência do estigma e da discriminação tem um impacto profundo na vida das pessoas com obesidade. O primeiro contato com profissionais de saúde, por exemplo, é muitas vezes tratado como um “momento zero”, desconsiderando “uma vida inteira de luta” que precede, marcada por tentativas de controle de peso e recaídas. Essa abordagem simplista e muitas vezes julgadora perpetua desigualdades e sofrimento.

José Silva Nunes enfatizou a necessidade de atuar junto aos profissionais de saúde para erradicar discursos simplistas como “coma menos e mexa-se mais”, que desconsideram a complexidade da doença e a realidade do paciente. A ridicularização e a chacota, infelizmente ainda presentes na forma como a obesidade é tratada, só podem ser combatidas com a ajuda da comunicação social, que tem o poder de moldar a percepção pública e promover uma visão mais empática e informada.

Cenário em Portugal: dados e a urgência da mudança

Os dados mais recentes sublinham a relevância e a urgência dessa discussão em Portugal. Segundo o Eurostat de 2025, o excesso de peso afeta 38,2% da população adulta no país, enquanto a obesidade atinge 17%. Entre as crianças de sete a nove anos, o cenário também é preocupante: em 2022, 31,9% apresentavam peso em excesso e 13,5% viviam com obesidade. Estes números reforçam a necessidade premente de uma comunicação mais eficaz e menos estigmatizante, que possa contribuir para a prevenção, o tratamento e, acima de tudo, para a inclusão e o respeito às pessoas que vivem com obesidade.

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