O bailarino Marcelino Sambé assume um novo marco em sua trajetória artística ao estrear-se como coreógrafo na Companhia Nacional de Bailado, em Lisboa. A peça, integrada no espetáculo inaugural da temporada, busca dialogar com a literatura nacional e expandir os horizontes da dança clássica tradicional.
Intitulada “Eles, Invertidos”, a criação faz parte do programa duplo “Desassossego” e bebe diretamente da atmosfera introspetiva do “Livro do Desassossego”, atribuído ao semi-heterónimo Bernardo Soares, criado por Fernando Pessoa. Para dar vida a essa visão literária no palco do Teatro Camões, o artista contou com a participação de 13 bailarinos.
Inovação no movimento e a visão sobre o corpo humano
Durante a fase de concepção artística, o coreógrafo buscou traduzir em gestos e dinâmicas corporais a densidade psicológica dos textos pessoanos. O processo criativo encarou o desafio de transpor palavras escritas para uma linguagem puramente corporal e visual.
A proposta visual da coreografia opera sob a premissa de uma inversão anatómica e existencial. O artista descreve o conceito como uma tentativa de virar o corpo humano do avesso para examinar a complexidade dos pensamentos e das inquietações que definem a condição humana.
Diálogo entre a tradição clássica e os novos públicos
Reconhecido internacionalmente como bailarino principal no Royal Ballet, em Londres, onde ingressou em 2012 e alcançou o topo da carreira em 2019, o intérprete defende a necessidade de atualizar o repertório coreográfico. O objetivo passa por aproximar as novas gerações das formas artísticas tradicionais.
O artista reforça que a técnica clássica, consolidada ao longo dos séculos, não deve funcionar como uma barreira rígida, mas sim como base para novas experimentações. A meta consiste em afastar o bailado de repetições anacrónicas e situá-lo em contextos contemporâneos relevantes.
Reconhecimento internacional e laços com Portugal
A consolidação da carreira de Marcelino Sambé inclui diversas distinções de relevo, como o Critics’ Circle National Dance Award em 2017 e a atribuição do título de Cavaleiro da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada em 2022. O percurso também acumula passagens pela Escola Artística de Dança do Conservatório Nacional.
Para o criador, o território nacional representa um espaço de total liberdade expressiva e segurança artística. Essa relação estreita com as instituições locais permite o desenvolvimento de projetos inovadores que celebram, em simultâneo, o património cultural e a abertura para o futuro.
Continue a acompanhar todas as novidades culturais, atualizações e reportagens aprofundadas no Mais 1 Portugal, o seu portal de referência para uma informação rigorosa e diversificada.