Vera iaconelli alerta sobre a ilusão das redes sociais e o consumo

Vera iaconelli alerta sobre a ilusão das redes sociais e o consumo

As redes sociais alimentam diariamente a ilusão de uma vida marcada por luxo e felicidade permanente, criando expectativas difíceis de alcançar. A análise é da psicanalista Vera Iaconelli, que esteve em Portugal para apresentar seus livros.

Em entrevista concedida em Óbidos, durante o festival Fólio, a autora de Felicidade ordinária apontou que o consumo deixou de ser estritamente material para assumir o papel de reconhecimento social. Exibir produtos caros e experiências exclusivas transformou-se em uma forma de validação individual, gerando uma insatisfação constante que é amplificada pelas plataformas digitais.

O impacto do consumo e a promessa política

Segundo a especialista, a busca por um estilo de vida inalcançável gera frustrações que acabam repercutindo em diversos setores da sociedade. Isso cria uma insatisfação permanente, que nenhum governo vai conseguir entregar, mas que existem, até por má fé, certos grupos que prometem que isso vai ser entregue.

A ultradireita tem explorado essa distorção, oferecendo falsas promessas de inserção social por meio do consumo. Para a psicanalista, as imagens divulgadas por influenciadores digitais exercem um efeito profundamente negativo sobre o público. Essas imagens têm um efeito deprimente sobre quem consome, porque são só os melhores momentos.

A busca pela felicidade e a vida comum

Nas conversas de consultório, a sensação de perda e inadequação é um tema frequente. A felicidade é vista como possível só quando a pessoa tiver tal coisa, seja a casa, o marido, qualquer coisa que está prometida em algum lugar. Em contraponto a essa lógica, a especialista recupera o conceito freudiano de que a busca humana deve mirar a aceitação da vida real e cotidiana.

A comparação com jogos de azar também ilustra o cenário atual. A vida comum é a vida que não serve, né? A busca incessante por grandes prêmios ou acontecimentos excepcionais afasta o indivíduo da realidade presente, assemelhando-se ao comportamento estimulado por plataformas de apostas.

O papel dos pais e a necessidade de regulação

Outro ponto crítico levantado envolve o uso excessivo da tecnologia por crianças e adolescentes, impulsionado pelo comportamento dos próprios adultos. Um primeiro problema é que os adultos também estão viciados nas redes sociais.

Diante desse cenário, a defesa de medidas governamentais torna-se urgente. É importante pressionar os Estados para aumentar a regulação e se conscientizar de que a regulação é importante, para que a gente possa fazer um circuito que passe pela sociedade civil, pelo Estado, pelas empresas, pelas escolas.

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