A aldeia de Baishe, localizada a cerca de uma hora de carro a norte de Xi’an, na província de Xianxim (Shaanxi), guarda um segredo arquitetónico que desafia a perspetiva tradicional de paisagem urbana e rural. Vista da superfície, a localidade parece simplesmente não existir: não há telhado ou parede à vista, apenas grandes depressões quadradas escavadas no terreno árido. Contudo, ao aproximar-se da borda e olhar para baixo, o visitante descobre habitações inteiras instaladas no fundo de fossos, com o fumo das cozinhas a subir lentamente em direção ao céu.
Descendo por uma escadaria de pedra, chega-se a um pátio ao ar livre rodeado por paredes de terra onde foram abertas várias divisões residenciais. No centro deste espaço, cresce uma nogueira frondosa cuja copa é a única parte visível desde a superfície. Um verso popular da região resume com precisão esta realidade singular: vê-se a árvore, mas não a aldeia; entra-se na aldeia, mas não se vê a casa; ouvem-se vozes, mas não se veem pessoas.
Arquitetura subterrânea e o conceito de di keng yao
Nas tradicionais habitações chinesas com pátio interior, os edifícios dispõem-se habitualmente em torno de um espaço central descoberto. Em Baishe, os antigos moradores levaram esta ideia ancestral para debaixo da terra, criando o formato conhecido como di keng yao. Trata-se de um pátio escavado diretamente na vertical, rodeado por dezenas de habitações subterrâneas que aproveitam as propriedades naturais da terra amarela da região.
Historicamente, esta técnica representava a forma mais económica de construir um lar. As famílias utilizavam apenas o solo local, dispensando a compra de materiais dispendiosos, exceto para portas e janelas. O Planalto de Loess revelou-se determinante para o sucesso destas construções. A terra amarela exibe elevada resistência ao desmoronamento, enquanto a barreira natural das montanhas Qinling reduz a humidade e a precipitação, mantendo o subsolo seco e ideal para a preservação destas estruturas.
Resistência cultural e a vida sob a terra
O senhor Zuo, com 80 anos de idade, representa a continuidade desta tradição secular. A viver no local há várias décadas, ele recorda que o complexo subterrâneo onde reside foi erguido pelo seu bisavô, mantendo-se na posse da família há mais de 120 anos. Embora os filhos já tenham sugerido a mudança para um apartamento moderno, Zuo recusa abandonar o legado ancestral, sustentando os fortes laços familiares e identitários associados à propriedade.
Além do valor sentimental e histórico, estas moradias oferecem vantagens térmicas expressivas. As espessas paredes de terra funcionam como um isolamento natural altamente eficaz, protegendo os residentes tanto do calor intenso do verão como do rigoroso inverno. Destas centenas de habitações subterrâneas outrora existentes na aldeia, apenas 25 continuam permanentemente habitadas nos dias de hoje.
Turismo rural e o novo olhar sobre o património
Nos últimos anos, o isolamento deu lugar a um fluxo crescente de curiosos, investigadores e turistas. Antigas estruturas ganharam nova vida através de iniciativas locais de alojamento, como a hospedaria rural aberta há 14 anos por um proprietário local. Nesses espaços, os visitantes podem vivenciar o quotidiano tradicional, consumir produtos biológicos da horta e provar iguarias como o pão regional confeccionado sobre pedras quentes.
Estudantes de arquitetura oriundos de países como a Finlândia e Singapura deslocam-se regularmente à localidade para analisar estas soluções construtivas, reconhecidas hoje como um modelo pioneiro de arquitetura ecológica. Para mais informações sobre património cultural e histórias fascinantes pelo mundo, continue acompanhando o Mais 1 Portugal, o seu portal de referência para conteúdos informativos e contextualizados.