A Cúpula Ibero-Americana começou nesta quarta-feira (4) em Madri com os olhos voltados para o presidente argentino, Javier Milei, crítico ferrenho do anfitrião, o socialista Pedro Sánchez, e com a chegada surpresa do ucraniano Volodimir Zelensky, que se reunirá com vários líderes à margem do encontro internacional.
Sempre controverso, Javier Milei chegou na tarde desta quarta-feira, mas não tem previsão de participar da cerimônia de abertura da cúpula nem do jantar oferecido posteriormente pelo rei Felipe VI no Palácio Real, segundo sua agenda oficial divulgada. Ele participará da sessão plenária na manhã de quinta-feira (05), quando ficará frente a frente com Pedro Sánchez, duas semanas depois de tê-lo chamado de “ditador desprezível” e “corrupto”.
Encontro e presenças na cúpula
Também na tarde desta quarta-feira, segundo fontes do governo espanhol, Volodimir Zelensky chegou a Madri. O presidente ucraniano não participará formalmente da cúpula, mas aproveitará a ocasião para se reunir com Pedro Sánchez, seu firme aliado, e com líderes da América Latina, região onde a invasão russa gera controvérsia e divisão diplomática.
Mais de quatro anos e meio após a invasão russa, as negociações entre Kiev, Moscou e Washington devem ser retomadas nos dias 10 e 11 de novembro, nos Emirados Árabes Unidos, sob mediação americana. Volodimir Zelensky, que esteve na terça-feira em Berlim, disse esperar que essas conversas possam resultar em um encontro com seu par russo, Vladimir Putin.
Ausências e cenário político
Além de Javier Milei, participam desta 30ª Cúpula Ibero-Americana outros representantes da direita de uma América Latina atualmente inclinada para esse lado do espectro político, como o chileno José Antonio Kast, a costarriquenha Laura Fernández, o boliviano Rodrigo Paz e o hondurenho Nasry Asfura.
Não estarão presentes os principais representantes da esquerda regional: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, recém-reeleito, e a mexicana Claudia Sheinbaum, que recentemente deu por encerrada uma crise diplomática com Madri depois que o rei Felipe VI reconheceu que houve muitos abusos durante a conquista histórica.
É uma cúpula desconfortável para Pedro Sánchez, devido aos presidentes que comparecerão, ao fato de estar em campanha para as eleições legislativas de 29 de novembro e de o encontro ocorrer logo após o acidente ferroviário de Urda, que deixou 69 mortos, resumiu à AFP Anna Ayuso, especialista em América Latina do centro de estudos CIDOB, de Barcelona.
Tensões e discursos em Madri
A especialista, porém, descarta uma cena semelhante à da cúpula de 2007, quando o rei Juan Carlos I disparou “Por que não te calas?” contra o venezuelano Hugo Chávez, já que não espera uma explosão de Javier Milei diante de Felipe VI durante o evento oficial.
O argentino visitou o território espanhol várias vezes desde que assumiu a Presidência, no fim de 2023, mas sem se encontrar com o rei ou com Pedro Sánchez. Desta vez, também não tem reuniões bilaterais previstas com eles. Em sua visita a Madri, há duas semanas, o líder ultraliberal pediu aos espanhóis que expulsem os socialistas a pontapés nas eleições legislativas.
Em resposta, Pedro Sánchez declarou com orgulho ser um canhoto — palavra usada pelo argentino para criticar militantes de esquerda — e comparou a situação econômica da Argentina e da Espanha para concluir que as motosserras e os cortes não constroem nada, apenas destroem o tecido social.
Reuniões e repercussão internacional
Javier Milei, que já em 2024 provocou uma crise diplomática com a Espanha ao chamar de corrupta, em Madri, a esposa de Pedro Sánchez, investigada por tráfico de influência, tem previsão de se reunir nesta quarta-feira com Santiago Abascal, líder do partido de extrema direita Vox, a quem manifestou apoio durante suas visitas à Espanha.
As pesquisas preveem uma vitória da direita sobre os socialistas de Pedro Sánchez nas eleições de 29 de novembro, embora sem maioria absoluta, o que tornaria necessário o apoio da extrema direita para conseguir formar um governo estável. Apenas sete presidentes latino-americanos participarão da cúpula desse bloco político, que está em declínio há anos e reúne 19 países latino-americanos, além de Espanha, Portugal e Andorra.
Outra ausência de destaque na cúpula é a da presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, marcando ainda mais o perfil dos líderes presentes no evento na capital espanhola.
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