A edição de 2026 da Money Conference consolidou-se como um palco central para a discussão sobre os desafios estruturais que moldam o setor financeiro nacional e europeu. Com o foco voltado para a tecnologia, a regulação e a sustentabilidade, o evento reuniu especialistas, reguladores e líderes de mercado para analisar como Portugal se posiciona num cenário de incerteza global e rápida transformação digital.
O alerta do Banco de Portugal sobre o poder de compra
Durante a sessão de abertura, o Governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, trouxe para o centro do debate a fragilidade do poder de compra das famílias portuguesas. O responsável destacou que a inflação tem superado sistematicamente as taxas de juro oferecidas nos depósitos a prazo, um desequilíbrio que exige uma resposta atenta por parte das instituições financeiras.
Santos Pereira defendeu abertamente que existe margem para uma valorização das taxas pagas aos depositantes, incentivando assim a poupança interna. Além da política monetária, o Governador sublinhou a urgência de combater a fraude digital, alertando para a proliferação de campanhas falsas que utilizam indevidamente a sua imagem para promover esquemas de criptomoedas e produtos financeiros duvidosos.
A reinvenção da banca europeia perante a concorrência global
Num painel dedicado à transformação estrutural, Luís Barbosa, da PwC Portugal, traçou um diagnóstico claro: a banca europeia enfrenta um ponto de viragem histórico. Para competir com os gigantes tecnológicos dos Estados Unidos e da Ásia, as instituições europeias precisam de uma reinvenção profunda.
O especialista defende a transição para um modelo de negócio AI native, onde a inteligência artificial e a gestão de dados não são apenas ferramentas de suporte, mas o núcleo da estratégia. Segundo Barbosa, a soberania digital será o próximo grande campo de batalha regulatório, exigindo que os bancos equilibrem a inovação tecnológica com a manutenção da confiança e da proximidade, que continuam a ser os seus ativos mais valiosos.
Resiliência do crédito e o novo ciclo económico
Um dos pontos altos do evento foi a análise sobre a saúde do crédito em Portugal. Ao contrário de outros mercados internacionais, o setor financeiro português apresenta-se hoje como um dos mais capitalizados da Europa, fruto de uma década de reestruturação rigorosa.
Especialistas como António Payan Martins, da CMS Portugal, e Gustavo Guimarães, da Apollo Global Management, concordam que o país está blindado contra a chamada “exuberância irracional”. Contudo, o sucesso no próximo ciclo económico dependerá da capacidade do Estado em implementar medidas céleres e estruturais que garantam a sustentabilidade dos diversos setores produtivos face a possíveis crises externas.
Inteligência artificial e o futuro do trabalho
A disrupção causada pela inteligência artificial generativa também ocupou o centro das atenções. O debate, que contou com a participação de Afonso Eça (BPI) e Susana Afonso (CMS), destacou que a tecnologia não é apenas uma questão de eficiência, mas um imperativo de sobrevivência empresarial. Embora a automação possa extinguir funções tradicionais, os especialistas reforçam que o pensamento crítico humano permanece insubstituível.
A regulação europeia surge aqui como um filtro necessário, garantindo que a adoção de algoritmos em áreas sensíveis, como o recrutamento, não perpetue preconceitos ou discriminações. O desafio para as empresas é, portanto, duplo: investir na requalificação profissional e assegurar que a transição tecnológica seja ética e inclusiva.
Diversidade de estratégias entre os desafios do mercado
A Money Conference 2026 serviu ainda para mapear as diferentes rotas de crescimento dos bancos que operam em Portugal. Enquanto instituições como o Abanca apostam na consolidação através de aquisições, outras, como o BBVA, privilegiam o crescimento orgânico. O Bankinter continua a sua trajetória de expansão focada no aconselhamento personalizado, enquanto a Revolut e o Banco CTT exploram modelos digitais e de proximidade para captar novos segmentos de clientes.
O Mais 1 Portugal continuará a acompanhar de perto estas movimentações e os impactos das decisões financeiras no dia a dia dos cidadãos. Convidamos os nossos leitores a manterem-se informados através das nossas próximas análises sobre o setor bancário e a economia nacional, garantindo sempre uma leitura crítica e atualizada dos factos que moldam o nosso futuro.