O Bloco de Esquerda elegeu a nova coordenação do partido na XIV Convenção Nacional que decorreu no fim de semana em Lisboa. O professor catedrático e ex-vice-presidente da Assembleia da República, José Manuel Pureza, é o novo coordenador do Bloco e chega numa altura crítica para o partido, que tem sido bastante criticado por se fechar em si próprio.
“O Bloco tem estado muito à defensiva nos últimos anos”, reconheceu Maria Matias em declarações à RTP, relativamente a esse “fecho” de que se ouvia falar ao longo de dois dias de Convenção. “O partido fechou-se, mas isso nada tem a ver com Mariana Mortágua. É um facto que vem muito de trás”, esclareceu Matias.
A moção apresentada pela lista A, encabeçada por José Manuel Pureza, venceu com 384 votos, conquistando 65 dos 80 lugares da Mesa Nacional do partido. A moção S obteve 47 votos e oito mandatos, seguida da moção H, com 26 votos e quatro mandatos, e da B, com 15 votos e três mandatos. Depois de anunciados os resultados que consagraram a eleição de José Manuel Pureza na XIV Convenção Nacional do partido, o seu discurso foi o mais aguardado.
Numa altura em que o partido atravessa a sua pior fase desde a fundação, o professor catedrático da Faculdade de Economia e investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra prometeu uma esquerda disposta a retomar o diálogo com todos. “Temos de fazer todos os diálogos necessários para que a Esquerda ganhe iniciativa e reconquiste força em Portugal”, disse o novo coordenador bloquista. O Bloco precisa “mesmo de mudar o seu funcionamento interno”, reconheceu.
“Vamos ter de envolver pessoas de todos os quadrantes, de ouvir e de discutir muito, para podermos construir um novo programa político para o Bloco de Esquerda”, defendeu.
“Temos de saber fazer da nossa pluralidade a nossa força. Temos de combinar sabiamente resistência e reconquista e não podemos cair na armadilha da dispersão nem na de lutas desnecessárias”, reforçou.
Pureza pediu desculpa ao eleitorado bloquista por não ter conseguido derrotar “ainda” a extrema-direita. “Nesta convenção, analisamos o caminho dos últimos dois anos, a derrota que sofremos e o que temos a aprender com ela. “Em nome do Bloco, quero pedir desculpa ao nosso povo porque a esquerda ainda não conseguiu vencer a extrema-direita que estrangula o país”.
Depois, o novo coordenador bloquista criticou a força do capital e a nova reforma laboral proposta pelo governo e que será aprovada pelo Chega, lembrando os trabalhadores e a exploração laboral de imigrantes e alertando para os perigos da extrema-direita.
“O nosso tempo é de uma ofensiva sem quartel dos oligarcas milionários. Esmagam salários e os direitos mais elementares de quem trabalha, não têm limites na predação dos recursos naturais e do clima e, porque tudo isso não lhes basta, animam e financiam a brutalidade da extrema-direita. Estamos no meio da onda gigante da ofensiva dos oligarcas milionários”, reforçou.
O ex-vice-presidente da Assembleia da República alertou para a hegemonia das direitas que hoje lideram o país e que, com a anuência do atual governo, atacam o Serviço Nacional de Saúde, destruindo-o para depois privatizar. Lembrou as crises na habitação, “o governo não constrói casas deliberadamente, repito, deliberadamente”, e a precariedade entre os jovens, sem esquecer os pensionistas que estão a ser empurrados “para fora das cidades” em prol do mercado imobiliário.
Pureza avisou que este “é o governo mais à direita que o país teve depois do 25 de abril” e prometeu “abertura e firmeza” do Bloco como garantias para juntar forças e formas de luta.
O novo coordenador do Bloco promete reorganizar o partido para retomar as lutas necessárias, como a greve geral que aí vem. “É preciso outro caminho, e esse caminho começa na Greve Geral de 11 de dezembro”.
“A força desta greve geral também será reunir nela os trabalhadores imigrantes, que têm sofrido muito. Todas as lutas na mesma luta, é assim que tem de ser”, disse.
E terminou com a garantia do regresso de uma “esquerda socialista sem vergonha de dizer que é esquerda”. “Uma esquerda que põe o salário, a casa, a saúde, a igualdade, a liberdade, acima de tudo. Não viramos a cara a ninguém”, avisou.
“Vamos disputar os jovens à extrema-direita em todas as escolas, vamos lutar contra as mentiras”.
Vamos apoiar os trabalhadores que se sindicalizam, vamos vencer quem cria uma cultura de violência contra as mulheres, vamos proteger os pensionistas e os reformados da gula dos oligarcas. Vamos combater o individualismo que exclui e lutar em prol da comunidade que nos engrandece. Assumimos um programa socialista contra o egoísmo e o ódio”, concluiu o novo coordenador do Bloco de Esquerda.