A cidade do Porto sediará, no dia 17 de maio, a 2.ª edição da Remigration Summit (Cimeira da Remigração, em tradução literal), com a presença de figuras conhecidas da extrema-direita europeia e internacional. A escolha de Portugal para o evento mostra como o país está conectado com a rede extremista que defende o supremacismo branco, a deportação em massa de imigrantes e que difunde a falsa teoria de que os europeus serão “substituídos” por imigrantes nos próximos anos.
A organização desta edição em Portugal está a cargo de Afonso Gonçalves, conhecido por ser o líder da Reconquista e apoiante do Chega (com apelo de voto ao partido e a André Ventura nas eleições mais recentes). O ativista, já detido várias vezes por ações de caráter xenófobo, foi um dos oradores na cimeira do ano passado, ocorrida no mês de maio, na cidade italiana de Milão, em Itália. “Se combinarmos remigração com coragem, com boa estética, com uma boa visão, com coisas com as quais as pessoas queiram associar-se, com coisas que tenham significado, nós venceremos”, afirmou na ocasião.
O evento na Invicta já tem a presença confirmada de nomes como Dries Van Langenhove, Martin Sellner e Eva Vlaardingerbroek. E quem são eles? Martin Sellner, austríaco de 27 anos, é o mais conhecido de todos, sendo o responsável pela popularização do termo “remigração” na Europa. Em 2023, foi organizador do que ficou conhecido como “Reunião de Potsdam”, quando apresentou o plano de remigração.
No currículo tem passagens por grupos neonazis quando mais jovem (admitiu-o publicamente), foi orientado por Gottfield Küssel, negacionista do Holocausto, e teve entrada negada em países como Estados Unidos, Reino Unido e Suíça, de onde foi expulso em 2024. Oficialmente, o ativista não possui vínculo de emprego formal ou académico, sendo que vive de doações de apoiantes, de forma individual ou através do grupo que fundou, o Movimento Identitário da Áustria.
Em 2019, um dos doadores de Sellner foi o autor do ataque de Christchurch, ocorrido naquele mesmo ano. O criminoso doou 1500 dólares ao austríaco no mesmo ano em que perpetrou o ataque, matando 51 pessoas. Bastante próximo de Afonso Gonçalves, o ativista esteve no Porto no final de novembro passado a palestrar no Congresso da Reconquista. “O que está a acontecer é um evento histórico de extinção e estamos no meio dele agora. As ferramentas? A imigração de substituição da população, instalação ilegal e censura massiva para suprimir a reação imunitária natural da vossa nação e do vosso povo. Isto é real e duradouro. O Governo não é, o PIB não é, o mercado financeiro não é”, disse no discurso.
Já o belga Dries Van Langenhove, de 32 anos, fundou o grupo Escudo & Amigos, que tem como principal bandeira a anti-imigração. Este mês, o tribunal belga confirmou uma sentença de pena suspensa e multa por violar leis do racismo e do negacionismo do Holocausto. Dries foi eleito deputado em 2019, mas renunciou ao mandato por preferir o ativismo à política. Na bio do X (antigo Twitter), descreve-se como: “Ativista da Remigração. Enviado para a prisão pelo regime de Bruxelas por ‘discurso de ódio’ porque amo a civilização europeia.”
Eva Vlaardingerbroek, 29 anos, é advogada e outra ativista anti-imigração confirmada como outra oradora na cimeira do Porto. Nascida nos Países Baixos, já foi deputada pelo partido de direita Forum for Democracy (FvD) e é uma defensora do antifeminismo e da remigração, sendo uma figura reconhecida por estas posições não só na Europa, mas também nos Estados Unidos. Assim como Sellner, foi oradora na 1.ª edição da Remigration Summit do ano passado, em Milão. Com mais de um milhão de seguidores no X, define-se como: “Donzela escudeira da extrema-direita” | Comentarista | Advogada | Geração Remigração.”
Em discurso na Hungria, contrariou o que investigadores dizem e afirmou que é uma “realidade” a substituição populacional. “Eu falei a verdade proibida: a Grande Substituição não é mais uma teoria – é realidade. Europeus brancos estão a ser substituídos nos seus próprios países a um ritmo cada vez mais acelerado… Se nada mudar, se não começarmos a lutar seriamente pelo nosso continente, pela nossa religião, pelo nosso povo, nossos países… o invasor foi ativamente convidado a entrar por uma elite corrupta… E, claro, todos nós sabemos o que eles querem dizer com a palavra diversidade. Significa menos pessoas brancas, menos de vocês”, disse em 2024, na Conferência Política de Ação Conservadora (CPAC, sigla em inglês), um movimento internacional.
Do online para o real
Os criadores deste movimento anti-imigração possuem várias características em comum. São homens, jovens, brancos, com grande alcance nas redes sociais e sem carreira profissional ou académica. Em geral, vivem do ativismo que fazem, não têm empregos formais e pedem, de forma recorrente, doações aos seguidores. Eva Vlaardingerbroek é uma exceção, por ser mulher (recorde-se que a Reconquista é contra o direito de voto das mulheres, por exemplo) e por trabalhar como advogada.