Este modelo de negócio liberta os municípios da carga burocrática e técnica da gestão de infraestruturas tecnológicas. “Nós garantimos que o sistema funciona 365 dias por ano. Se um sensor for danificado por uma cheia ou precisar de calibração, a responsabilidade é nossa”, explica Tiago Marques, que tem no momento “15 pessoas” a trabalhar na empresa.
Mapa virtual de Lisboa com alertas é possível
Um dos aspetos mais poderosos desta tecnologia não é apenas a recolha de dados, mas a forma como as autarquias os podem visualizar. Tiago Marques afirma que a Greenmetrics.ai permite que os municípios integrem estas leituras em mapas virtuais dinâmicos — os chamados “Gémeos Digitais” (Digital Twins). Imagine-se um mapa 3D de Lisboa (ou outra cidade) onde, em tempo real, as autoridades conseguem ver o fluxo de água a correr pelos túneis do Plano Geral de Drenagem ou a pressão acumulada nas sarjetas da Baixa.
Este mapa virtual funcionaria como um sistema de Raio-X da cidade, que poderia mesmo ser disponibilizado a toda a população. “As nossas plataformas permitem a visualização e monitorização dessas variáveis de forma intuitiva”, explica Tiago.
Uma “fábrica de dados” contra gigantes
A startup portuguesa surge no mercado perante gigantes internacionais, como a Google e o seu Flood Hub, que ainda este mês apresentou uma solução baseada em IA que promete prever riscos de inundações repentinas com base em dados analisados via histórico de notícias dos media. Tiago Marques é assertivo na diferenciação: “A Google é míope para o detalhe de rua. Eles têm a visão macro, baseada em satélite e modelos hidrológicos de grandes bacias, etc., mas o satélite não vê o que se passa dentro de um coletor de esgoto ou debaixo de um viaduto.”
Esta limitação das big tech abre espaço para a especialização da startup portuguesa. A Google consegue prever que o Rio Tejo vai subir, mas a Greenmetrics consegue prever que a sarjeta da Rua X vai entupir e inundar o quarteirão vizinho em poucos minutos devido a uma obstrução local. E avisar as autoridades para a ir desobstruir. “Foi o que aconteceu no túnel da Avenida da República nas últimas chuvadas”, conta Tiago Marques.
O sistema é desenhado com resiliência física inerente. Numa tempestade severa, as redes móveis e a eletricidade são as primeiras infraestruturas a colapsar. “O sensor não precisa de eletricidade da rede e comunica por rádio”, utilizando a tecnologia LoRaWAN, garante o CEO. Esta autonomia significa que, mesmo quando a cidade fica às escuras e os sistemas de comunicação convencionais falham, os dados continuam a fluir de forma autónoma para os centros de comando através de gateways com baterias de reserva.
Tiago Marques espera que, com soluções como a que propõe, o tempo da gestão de danos meramente reativa acabou. Afinal, “o conceito de ‘período de retorno de 100 anos’ morreu. Agora as catástrofes acontecem de 2 em 2 anos”, alerta, referindo-se à aceleração das alterações climáticas.
Pela experiência de quem vê a tendência do nível da água subir praticamente de ano para ano, apenas uma mensagem lhe ocorre: “Não priorizar a prevenção e continuar a trabalhar na correção é uma sentença de morte para a resiliência de uma cidade e para o orçamento dos seus contribuintes.”