As tempestades severas que assolaram o país (sobretudo a região Centro), desde o final de janeiro e durante três semanas, tiveram um impacto significativo no crescimento da economia, sobretudo no primeiro trimestre, mas depois, mesmo com o impulso que se espera da parte do investimento e do consumo (por via de decisões que foram adiadas) e do plano do governo para reconstruir o país (o PTRR – Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência), a economia portuguesa irá ressentir-se negativamente no ano de 2026 como um todo, explicou o governador do Banco de Portugal (BdP) na sequência de uma questão do DN, durante a conferência de imprensa de apresentação do novo boletim económico.
Álvaro Santos Pereira disse que o BdP ainda está a reunir informação sobre os danos provocados na economia e que “em breve” divulgará um estudo sobre o assunto, mas que, de forma muito preliminar, já se pode dizer que o impacto foi “negativo” e concentrado no primeiro trimestre, embora salientando que depois “vamos ter a recuperação do capital destruído”, o efeito das decisões de consumo que “foram adiadas na altura”.
Seja como for, mesmo com a recuperação e reconstrução em curso, Portugal vai ressentir-se e em 2026 (tudo considerado) deve crescer menos uma décima de Produto Interno Bruto (PIB).
No caso do novo cenário, a economia portuguesa deve crescer cerca de 1,8% este ano (já com os primeiros efeitos destrutivos na confiança, na atividade e inflacionistas decorrentes da nova guerra no Médio Oriente). Não fosse a tragédia das tempestades e a economia podia crescer 1,9% em termos reais, basicamente.
Ainda em resposta ao DN, Nuno Alves, o economista-chefe do BdP, estima, também de forma ainda muito preliminar, que o efeito destrutivo direto das tempestades pode rondar um choque negativo de “duas décimas” na taxa de crescimento do PIB. Depois, a recuperação colocará o impacto final “em menos um décima”. O mesmo que dizer que o impulso da reconstrução e dos apoios públicos pode render uma décima positiva ao ritmo da economia.
O boletim económico, apresentado esta quarta-feira, explica que “neste contexto de elevada incerteza, projetam-se variações em cadeia do PIB de 0% no primeiro trimestre e 0,4% nos trimestres seguintes, após 0,9% no quarto trimestre de 2025”.
“Este perfil encontra-se marcado pelo impacto das condições meteorológicas extremas, observadas no início do ano, e pelos efeitos adversos associados ao conflito no Médio Oriente”, acrescenta.
O Banco recorda que “entre o final de janeiro e a primeira quinzena de fevereiro, o território nacional foi afetado pela tempestade Kristin e por episódios de precipitação intensa e persistente”.
Os fenómenos em causa tiveram “maior incidência na região Centro” e “causaram danos em edifícios residenciais e empresariais, terrenos agrícolas e infraestruturas, incluindo redes de distribuição de eletricidade, transporte e comunicação”.
Para já, “os indicadores de alta frequência sugerem um impacto negativo temporário na atividade, em particular nas regiões mais afetadas”. Além disso, “o abrandamento da atividade no início do ano reflete também a dissipação do impacto positivo no consumo privado, associado às medidas governamentais que reforçaram o rendimento das famílias na segunda metade de 2025”.
Segundo o novo estudo do banco central português, “a projeção assume uma recuperação da atividade em março e um efeito positivo ao longo do horizonte, associado aos trabalhos de reconstrução dos estragos causados, essencialmente via investimento”, muito embora esta estimativa esteja “rodeada de grande incerteza, dada a informação ainda limitada sobre a dimensão dos prejuízos e o impacto das medidas de apoio anunciadas pelo Governo”.
“Em sentido contrário, o aumento da inflação e o agravamento das condições de financiamento deverão condicionar as decisões de consumo e investimento dos agentes, em particular ao longo de 2026” e “a procura externa dirigida à economia portuguesa também deverá apresentar um menor dinamismo neste período, tendo em conta a natureza global do choque”.
O BdP recorda que as medidas anunciadas pelo governo “incluem o apoio extraordinário às famílias, empresas e municípios afetados pela tempestade, abrangendo subsídios diretos, linhas de crédito bonificadas, apoios à reconstrução de infraestruturas públicas e medidas fiscais e contributivas temporárias”.