A comunidade do bairro da Graça, em Lisboa, intensifica sua luta contra a construção de um hotel de luxo no histórico Quartel da Graça. Neste sábado, 9 de maio, um novo protesto reuniu cidadãos em frente ao edifício público, utilizando a melodia do fado para amplificar suas reivindicações. A iniciativa, organizada pela assembleia de cidadãos “Parar o Hotel no Quartel da Graça”, busca sensibilizar a população e as autoridades sobre a importância de preservar o espaço para uso comunitário, em vez de destiná-lo a mais um empreendimento turístico.
Chiara Moneta, representante do movimento, destacou a importância da mobilização. “Vamos este sábado propor um concerto de fados para juntar assim a população da Graça, e de outros bairros também, e sensibilizar as pessoas sobre o tema da construção do hotel no Quartel da Graça”, afirmou, expressando a expectativa de grande adesão. O protesto, que ocorreu das 15h às 18h no Largo da Graça, contou com o apoio logístico e institucional da Junta de Freguesia de São Vicente, reforçando a união entre moradores e o poder local.
A Luta Pela Preservação do Quartel da Graça
Apesar do início das obras em março de 2026, com um atraso significativo em relação ao cronograma original que previa a abertura do hotel no final de 2022, a assembleia de cidadãos mantém-se firme em sua oposição. Chiara Moneta reconhece que a batalha contra o projeto do grupo hoteleiro Sana “não vai ser fácil”, mas reitera o compromisso de “tentar até o fim”. A principal crítica reside na saturação turística que já afeta o bairro, comprometendo a qualidade de vida dos residentes.
“A última coisa que queremos é que seja um hotel […] há muitos hotéis na cidade e o nosso bairro, em particular, já está estrangulado para o turismo”, enfatizou Moneta. A visão da comunidade para o Quartel da Graça, um “espaço enorme”, é a de um local destinado à comunidade, com habitação social, oficinas para atividades culturais e sociais, e um modelo de democracia direta que promova uma cidade “mais habitável, mais viva e mais comunitária”. Essa proposta contrasta diretamente com o plano de um hotel de cinco estrelas, que prevê 120 quartos e um investimento estimado de 30 milhões de euros.
O Contexto do Programa Revive e a Concessão
O Quartel da Graça, classificado como monumento nacional desde 1910, integra a lista de imóveis históricos a reabilitar no âmbito do programa Revive. Lançado em 2019 pelo então Governo do PS, o programa visa dar nova vida a patrimônios desocupados, muitas vezes através de concessões a privados. No caso do Quartel da Graça, a concessão foi atribuída ao grupo Sana por um período de 50 anos, com uma renda anual de 1,79 milhão de euros. Contudo, o atraso no cumprimento dos prazos contratuais, com as obras só iniciando em 2026, levanta questionamentos sobre a validade e a fiscalização do acordo.
A petição pública criada em maio de 2025 pela assembleia “Parar o Hotel no Quartel da Graça” já acumulou mais de 4.500 assinaturas, demonstrando a ampla insatisfação popular. Esse engajamento reflete uma preocupação crescente em Lisboa com a gentrificação e a perda de espaços públicos para o turismo de massa, impactando diretamente a identidade e a dinâmica dos bairros históricos.
Apoio Político e Possíveis Desdobramentos Legais
O presidente da Junta de Freguesia de São Vicente, André Biveti (PS), manifestou total alinhamento com as reivindicações dos moradores. Além do apoio logístico ao protesto, Biveti revelou que a junta está avaliando a situação do contrato de concessão, considerando o “incumprimento” dos prazos. A possibilidade de avançar com uma “providência cautelar para que o hotel não avance” está sendo estudada, caso se comprove que o motivo do atraso é imputável ao grupo Sana.
Biveti também indicou que a contestação já ecoa no Governo. Uma carta foi enviada ao ministro das Finanças, que remeteu o caso para a Estamo, empresa responsável pela gestão de imóveis públicos. “Já serviu para, pelo menos, o Governo avaliar se realmente o contrato tem alguma irregularidade e para tentar perceber também quais são as consequências dessa irregularidade”, declarou o presidente da Junta. Este movimento político e legal adiciona uma nova camada de complexidade ao futuro do Quartel da Graça, sugerindo que a luta da comunidade pode ter repercussões além do âmbito local. A Câmara de Lisboa já havia chumbado moções de partidos de esquerda pela devolução do Quartel da Graça à esfera pública, evidenciando a polarização do debate.
A mobilização em torno do Quartel da Graça é um exemplo claro de como a sociedade civil e o poder local podem se unir para defender o patrimônio e a identidade de suas comunidades. O desfecho dessa disputa será crucial para definir o futuro de um dos edifícios mais emblemáticos de Lisboa e para o debate mais amplo sobre o equilíbrio entre desenvolvimento turístico e bem-estar dos moradores.
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