Os Estados Unidos intensificaram sua pressão econômica sobre Cuba nesta quinta-feira, 8 de maio de 2026, ao anunciar novas sanções que atingem diretamente a empresa estatal Gaesa, controlada pelas Forças Armadas cubanas, e a joint venture Moa Nickel (MNSA). Esta última, uma parceria crucial entre a Companhia Geral de Níquel de Cuba e a canadense Sherritt International, foi um dos principais alvos, gerando repercussões imediatas no cenário econômico da ilha caribenha.
A decisão da Casa Branca provocou a suspensão imediata das atividades da Sherritt International em Cuba, com a companhia canadense comunicando o rompimento do contrato aos seus parceiros. A medida, segundo a Sherritt, “cria condições que alteram substancialmente a capacidade da empresa de operar no curso normal dos negócios, incluindo as atividades relacionadas às operações da joint venture da Sherritt em Cuba”. Este movimento sublinha a profundidade do impacto das sanções americanas na economia cubana e nas relações comerciais internacionais.
Alvos estratégicos: Gaesa e a indústria do níquel
As sanções recaem sobre o Grupo de Administración Empresarial S.A (Gaesa), um conglomerado de empresas estatais cubanas com atuação em diversos setores estratégicos, como energia e turismo. Além da corporação, a Casa Branca também sancionou a presidente da Gaesa, Ania Guillermina Lastres Morera. Economista e deputada da Assembleia Nacional de Cuba desde 2018, Ania Lastres preside a Gaesa desde 2022, tornando-se uma figura central na administração econômica do país.
A indústria do níquel, em particular, é um pilar da economia cubana, sendo uma das poucas fontes significativas de divisas estrangeiras. A joint venture Moa Nickel, que agora enfrenta a saída da Sherritt International, era vital para este setor. A historiadora cubana Caridade Massón Sena, professora visitante na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), avalia que a nova onda de sanções terá um efeito devastador. “A indústria do níquel é uma das poucas que ainda estava funcionando. E esta empresa do Canadá era muito importante para a indústria do níquel. E era uma entrada, pelo menos, de divisas [dólares]. Então, isso vai afetar”, afirmou a especialista.
O impacto das sanções na economia cubana
A professora Massón Sena também ressalta que a Gaesa já vinha sentindo os efeitos de sanções anteriores. Com as novas medidas, a preocupação é que outros empresários com negócios em Cuba possam se assustar e retirar seus investimentos do país, agravando ainda mais a situação econômica. Os EUA acusam a Gaesa de “corrupção”, um pretexto que a historiadora questiona veementemente. “Eles usam esse pretexto de que os dirigentes da Gaesa roubam Cuba por meio do turismo porque o turismo é um dos setores que mais dinheiro gera no país. E não apresentaram nunca provas disso”, comentou Massón, destacando a falta de evidências concretas para as alegações.
A indústria do turismo, um dos principais motores econômicos da ilha, também está sob escrutínio e pressão, indiretamente afetada pela desconfiança gerada pelas sanções. A saída de parceiros internacionais e a dificuldade em atrair novos investimentos podem comprometer a recuperação econômica de Cuba, que já enfrenta desafios estruturais e a persistência de um bloqueio de décadas.
Escalada da pressão e o agravamento da crise humanitária
As sanções desta quinta-feira (8) não são um evento isolado, mas parte de uma escalada de medidas coercitivas. Elas se somam ao bloqueio naval contra a Venezuela, implementado a partir do final de 2025, que impediu a venda de petróleo para Cuba. Além disso, a ameaça de tarifas contra países que comercializam petróleo com Havana, iniciada em janeiro de 2026, levou a ilha a ficar três meses sem receber uma gota de combustível, mergulhando o país em uma crise energética profunda.
O bloqueio energético e as novas sanções têm causado um aumento drástico dos apagões, a elevação dos preços de produtos básicos, a redução do transporte público e a diminuição da oferta da cesta básica alimentar subsidiada pelo Estado. Para muitos moradores de Havana, a situação atual é a pior que já viveram. A professora Caridade Massón destaca a dificuldade do cotidiano, com a falta de eletricidade, combustível e medicamentos, e critica a passividade internacional diante da interferência dos EUA. “O objetivo é afogar os cidadãos cubanos pela fome e pela necessidade. Apenas os cubanos têm o direito de mudar nosso sistema econômico e político”, afirmou, contextualizando a pressão americana como uma tentativa de forçar uma mudança de regime.
Justificativas de Washington e a resposta de Havana
Em comunicado, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, justificou as medidas como necessárias para “proteger a segurança nacional dos Estados Unidos”. Segundo Rubio, as sanções são parte de uma campanha abrangente do governo Trump para enfrentar as “ameaças urgentes à segurança nacional representadas pelo regime comunista de Cuba” e responsabilizar aqueles que fornecem apoio material ou financeiro à ilha. A administração americana alega que Cuba representa uma ameaça por “abrigar instalações adversárias estrangeiras focadas em identificar e explorar informações sensíveis”.
Em resposta, o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, utilizou uma rede social para condenar as ações, afirmando que o povo cubano e o mundo já conhecem a crueldade do governo dos EUA. “Trata-se de uma agressão unilateral contra uma nação e seu povo cuja única ambição é viver em paz, senhores do próprio destino e livres da interferência perniciosa do imperialismo estadunidense”, declarou Díaz-Canel. Ele acrescentou que as sanções agravam a já difícil situação do país, mas, paradoxalmente, “fortalecem nossa determinação em defender a Pátria, a Revolução e o Socialismo”. As medidas coercitivas unilaterais são baseadas em uma nova Ordem Executiva publicada pelo presidente Donald Trump em 1º de maio de 2026, que autoriza novas restrições econômicas à ilha caribenha.
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