O ex-presidente da República Portuguesa, Cavaco Silva, fez uma contundente análise sobre o cenário geopolítico global e o papel da Europa, destacando a necessidade de o continente não se curvar às exigências do presidente norte-americano, Donald Trump. Em entrevista concedida à Rádio Renascença nesta quinta-feira, 14 de maio, Cavaco Silva classificou Trump como um líder “não confiável para a Europa”, criticando seu comportamento “super errático”.
A avaliação do antigo chefe de Estado reflete uma preocupação crescente com a imprevisibilidade da política externa dos Estados Unidos e seus impactos na segurança e economia europeias. Para Cavaco Silva, a postura de Trump, que “diz hoje uma coisa, e não sabemos o que dirá amanhã”, exige uma resposta estratégica e independente da União Europeia.
A necessidade de uma defesa europeia robusta
No cerne de suas declarações, Cavaco Silva defendeu um investimento significativo da Europa em sua própria capacidade de defesa, visando reduzir a dependência dos Estados Unidos. Ele propôs a criação de uma força europeia de Defesa, que, embora articulada com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), operaria de forma separada.
Essa força teria a capacidade de intervir em situações onde os interesses norte-americanos não se alinham com os europeus, preenchendo lacunas e garantindo a soberania de ação do continente. A ideia não é apenas fortalecer o pilar europeu dentro da OTAN, mas estabelecer uma identidade de defesa autônoma, capaz de responder aos desafios de um mundo cada vez mais complexo e multipolar.
Liderança na Comissão Europeia e críticas ao Conselho
Ao analisar a atuação dos líderes europeus diante dos desafios atuais, como a guerra na Ucrânia e os conflitos no Oriente Médio, Cavaco Silva elogiou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Ele destacou o “trabalho excelente” dela em um período de grande dificuldade, elogiando sua força e determinação em manter o apoio europeu à Ucrânia contra a agressão russa.
Em contraste, o ex-primeiro-ministro expressou maior confiança na Comissão Europeia do que no Conselho Europeu, que é atualmente liderado por António Costa. A razão, segundo Cavaco Silva, reside na tendência do Conselho de priorizar os interesses particulares de cada país-membro em detrimento dos interesses comunitários. Ele citou como exemplo nações que, após viverem sob regimes comunistas, foram acolhidas pela UE com grandes apoios, mas que, em certos momentos, parecem colocar seus interesses nacionais acima da visão unificada, como a Hungria, República Checa e Eslovênia.
Reformas econômicas e o desafio do investimento
Além da defesa, Cavaco Silva enfatizou a urgência de reformas econômicas profundas dentro da União Europeia. Ele apontou a necessidade de eliminar a burocracia que dificulta as transações de bens, serviços, capitais e a circulação de pessoas entre os países-membros, visando a criação de um verdadeiro mercado de capitais europeu.
Um mercado de capitais unificado permitiria aos Estados e empresas europeias realizar grandes emissões de dívida, competindo com as potianas norte-americanas e impulsionando o crescimento econômico. O antigo chefe de Estado também ressaltou a importância de fortalecer as relações externas e aumentar os acordos comerciais com outros países, uma área onde a Comissão Europeia já tem dado passos importantes.
Cavaco Silva fez referência ao Relatório Draghi, que alerta para a necessidade de corrigir atrasos em produtividade e tecnologia, e aponta para um investimento adicional assustador de 800 bilhões de euros anualmente na Europa. Esse montante, segundo ele, só pode ser alcançado através da emissão de dívida europeia, um mecanismo que, apesar de ter sido crucial durante a pandemia de covid-19, ainda enfrenta resistência entre os Estados-membros. A consciência crescente dentro da UE sobre a importância dessas reformas para garantir mais crescimento econômico e desenvolvimento tecnológico, e consequentemente, mais poder, é um sinal positivo para o futuro do continente.
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