O desafio da escala na economia portuguesa
Portugal encontra-se diante de um dilema estrutural que trava o seu desenvolvimento económico a longo prazo: o excesso de pequenas e médias empresas (PME), muitas delas na categoria de microempresas. Este cenário, frequentemente descrito como uma “armadilha de PMEs”, foi o tema central da conferência M&A – Consolidar para Crescer, realizada em Lisboa numa organização conjunta do Diário de Notícias e da consultora PwC. O debate colocou em evidência a necessidade urgente de aumentar a escala do tecido empresarial para elevar a produtividade nacional.
José Maria Brandão de Brito, secretário de Estado do Orçamento, sublinhou que a economia portuguesa apresenta uma produtividade cerca de 20% abaixo da média europeia. Segundo o governante, a fragmentação empresarial é um dos fatores determinantes para este atraso. Enquanto em países como os Países Baixos ou a Irlanda as grandes empresas têm um peso maior na força de trabalho, em Portugal, as PME empregam mais de 75% dos trabalhadores. Esta dispersão limita a capacidade de investimento em inovação, digitalização e ativos intangíveis, elementos cruciais para a competitividade global.
A estratégia de financiamento do Banco Português de Fomento
Para contrariar este cenário, o Banco Português de Fomento (BPF) apresentou uma estratégia ambiciosa. Gonçalo Regalado, presidente executivo da instituição, anunciou a intenção de injetar cerca de 30 mil milhões de euros no tecido empresarial português entre 2026 e 2028. O objetivo é claro: dar “músculo” global às empresas nacionais, permitindo que estas alcancem uma dimensão que lhes permita competir em mercados internacionais.
A solução proposta pelo BPF não se limita ao crédito tradicional. A estratégia envolve a utilização de garantias públicas, a captação de fundos europeus e a atração de capital de risco e fundos de investimento privados. A ideia é que o Estado atue como um catalisador, trazendo parceiros privados para um esforço coletivo de consolidação. Em 2025, o impacto das ações do banco já atingiu os seis mil milhões de euros, posicionando a instituição como um dos motores de financiamento mais relevantes da Europa em proporção ao PIB.
Rumo a um fundo soberano nacional
Além do apoio direto ao crédito, o BPF está a desenhar um projeto de maior envergadura. Tereza Fiúza, presidente executiva para a área de investimento (CIO) do banco, revelou que a instituição trabalha na criação de um mega-fundo de investimento. Este veículo, descrito como um “fundo de fundos”, funcionaria numa lógica semelhante a um fundo soberano, com caráter perpétuo e aberto a novas participações. A meta é replicar modelos de sucesso observados em economias como a da Irlanda ou de Israel, onde o crescimento das empresas de pequenas para globais é uma realidade consolidada.
A importância desta transição é reforçada pela visão do governo de Luís Montenegro, que defende a eliminação de obstáculos para que as empresas portuguesas possam crescer. O argumento é que empresas de maior dimensão oferecem melhores salários, estruturas de carreira mais robustas e menor precariedade laboral. A consolidação, portanto, não é apenas uma meta financeira, mas um imperativo social para melhorar o bem-estar dos trabalhadores e a resiliência da economia portuguesa face a choques externos.
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