A reinvenção da educação superior: Boris Walbaum e o futuro do aprendizado com IA

A reinvenção da educação superior: Boris Walbaum e o futuro do aprendizado com IA

Em um cenário global de transformações aceleradas, onde a Inteligência Artificial (IA) se consolida como uma ferramenta onipresente e o mercado de trabalho exige novas competências, o modelo tradicional de ensino superior tem sido cada vez mais questionado. É nesse contexto que Boris Walbaum, presidente e cofundador do Forward College, emerge como uma voz crítica e um proponente de soluções inovadoras. Para Walbaum, o mundo avança a uma velocidade que as universidades convencionais não conseguem mais acompanhar, criando um fosso crescente entre o que é ensinado e o que é realmente necessário. Foi essa percepção que o impulsionou a criar uma instituição que busca preencher essa lacuna, apostando em um modelo híbrido que integra excelência acadêmica, desenvolvimento de competências sociais e a execução de projetos com impacto real.

O Forward College, com sua proposta de desafiar os estudantes a viverem em três cidades europeias distintas – Lisboa no primeiro ano, Paris no segundo e Berlim no terceiro – simboliza essa busca por uma formação mais dinâmica e adaptável. A instituição não apenas oferece um currículo robusto, mas também prepara seus alunos para um mundo incerto, onde a capacidade de adaptação e a inteligência emocional são tão cruciais quanto o conhecimento técnico.

A Gênese de uma Visão Inovadora

A ideia de fundar o Forward College não surgiu de repente, mas cristalizou-se em uma madrugada de 2019 na Córsega, como um imperativo para Boris Walbaum. Sua trajetória profissional anterior foi fundamental para moldar essa visão. Como funcionário público, ele testemunhou a lentidão e a disfuncionalidade de grandes estruturas. Em sua experiência como empreendedor social na Article 1, uma associação francesa de apoio a jovens desfavorecidos, Walbaum percebeu o vasto talento que o sistema educacional tradicional muitas vezes ignora: a capacidade de adaptação, as habilidades sociais e a resiliência, qualidades essenciais para a vida e o mercado de trabalho.

Além disso, como consultor em educação, ele observou de perto o descompasso crescente entre as demandas do mundo contemporâneo e o que as universidades ofereciam. A chegada da Inteligência Artificial apenas acentuou essa disparidade, tornando urgente a necessidade de uma abordagem pedagógica que preparasse os estudantes para um futuro onde a inteligência cognitiva, por si só, já não seria o principal diferencial. A intuição de Walbaum era clara: era preciso uma nova forma de ensinar.

O Modelo Híbrido do Forward College

O Forward College foi intencionalmente desenhado para um mundo caracterizado pela incerteza estrutural. Walbaum compara a navegação em mares calmos, onde se otimiza a vela, com a navegação em mares agitados, que exige atenção constante ao ambiente e grande adaptabilidade. É essa profundidade e capacidade de ajuste que fundamentam o modelo da instituição. O currículo combina a excelência acadêmica de cursos da London School of Economics ou do próprio Forward College com um Programa de Liderança focado no desenvolvimento pessoal.

Este programa abrange habilidades cruciais como colaboração em equipe, construção de confiança, prática de feedback construtivo e comunicação não-violenta. Walbaum enfatiza que, em uma geração que tende a se afastar das relações humanas, o sucesso profissional e pessoal depende da capacidade de interagir, construir laços e comunicar eficazmente. A outra vertente do Programa de Liderança é a aprendizagem baseada em projetos, onde os estudantes são desafiados a fazer as coisas acontecerem, desenvolvendo resiliência, persistência e a habilidade de analisar problemas antes de propor soluções. Em cada período escolar, eles devem realizar um projeto com impacto real, experimentando os desafios e as recompensas da vida profissional.

A Metodologia da Sala de Aula Invertida e Seus Resultados

A metodologia central do Forward College é a sala de aula invertida (flipped classroom). Nela, os alunos são encorajados a aprender as lições de forma autônoma, um conceito que Walbaum descreve como “provocador”, pois desafia a noção tradicional de que o professor é o único transmissor do conhecimento. Essa abordagem visa desenvolver a autoaprendizagem, uma competência vital em um mundo que exige constante atualização e reaprendizagem.

O tempo em sala de aula, com turmas reduzidas de cerca de 15 alunos, é dedicado à interação humana: trabalhos em grupo, simulações, debates e discussões sobre questões complexas do curso. Essa dinâmica permite que os estudantes explorem diferentes perspectivas e cheguem a acordos, simulando situações da vida real. Os resultados desse modelo são notáveis: metade dos graduados segue diretamente para programas de mestrado, enquanto a outra metade opta por um ou dois anos no mercado de trabalho. O feedback dos recrutadores é consistentemente positivo, com uma média de 9,8 em 10, destacando a capacidade dos alunos de gerir projetos e entregar resultados. No âmbito acadêmico, 75% dos que buscam mestrado são admitidos em uma das 15 melhores universidades ou escolas de gestão europeias, incluindo instituições de prestígio como LSE, Oxford, UCL, King’s College e Sciences Po.

Internamente, os alunos passam por uma avaliação de 360 graus, onde são classificados por pares e professores em competências cognitivas, sociais, emocionais e práticas. Esse processo é complementado por sessões de coaching, que ajudam os estudantes a interpretar o relatório e a construir estratégias para o desenvolvimento contínuo de suas habilidades.

Educação na Era da Inteligência Artificial

A discussão sobre a reinvenção da educação na era da Inteligência Artificial é central para a filosofia de Walbaum. Ele argumenta que, com a IA tornando a inteligência cognitiva uma “mercadoria”, não é mais suficiente ser apenas “esperto”. Investir bilhões em sistemas que ensinam os alunos a fazer o que as máquinas farão melhor e mais rápido é um erro. Onde a IA não pode superar os humanos é na conexão social, na inteligência emocional, na capacidade de compreender o contexto e de agir sobre as coisas. Portanto, reinventar a educação significa focar em um espectro mais amplo do talento humano, desenvolvendo qualidades que serão verdadeiramente diferenciadoras frente à tecnologia.

No Forward College, a IA é vista como uma aliada, especialmente na sala de aula invertida, pois é uma tecnologia poderosa para apoiar a autoaprendizagem, sendo personalizada, flexível e adaptada ao ritmo de cada um. A instituição também aborda o uso inteligente da IA nas avaliações de forma rigorosa. Em alguns casos, o acesso à IA é monitorado por software ou restrito, enquanto em trabalhos para casa (take-home assessments), o uso da IA é não apenas permitido, mas esperado. Nesses casos, uma ferramenta de IA é utilizada para avaliar a inteligência com que o aluno utilizou a tecnologia. Além disso, são realizadas “Vivas” – sessões de perguntas e respostas orais – para garantir que o aluno realmente domina o conteúdo cocriado com a IA, reforçando a autenticidade do aprendizado.

Expansão e Visão para o Futuro

Olhando para 2030, Boris Walbaum projeta um futuro de crescimento contínuo para o Forward College. A expectativa é ter cerca de seis ou sete campi, com planos de expansão para países como Espanha, Reino Unido, Brasil e Itália. A instituição prevê um crescimento anual de 30% a 50%, considerado razoável e sustentável. Além disso, o Forward College planeja lançar programas de mestrado, começando com um em gestão em 2027 e outro em Assuntos Públicos em 2028.

Apesar da expansão, Walbaum reitera o compromisso de manter cada campus com uma “dimensão humana”, evitando que a instituição se torne uma “fábrica” de diplomas. A filosofia é preservar o senso de comunidade e proximidade que caracteriza o Forward College hoje, garantindo que os estudantes não se sintam apenas parte de uma multidão, mas de uma verdadeira “família” acadêmica. Essa visão de futuro reforça o papel do Forward College como um modelo para a educação superior que busca se adaptar e inovar em um mundo em constante evolução.

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