Portugal escreve um novo capítulo na história da proteção animal europeia com a transferência de Julie, a última elefanta a atuar em circos nacionais. Após anos de espetáculos, Julie ruma agora para um santuário de 400 hectares no Alentejo, um marco que não só cumpre a lei de 2018 que proibiu o uso de animais selvagens em circos, mas também posiciona o país como pioneiro na implementação prática de tais medidas.
Esta transição não é apenas um evento logístico, mas um ponto de viragem cultural significativo. Enquanto muitos estados-membros da União Europeia enfrentam desafios para tirar leis semelhantes do papel – frequentemente por impasses políticos, falta de financiamento ou, crucialmente, pela ausência de santuários adequados –, Portugal emerge como um modelo de execução eficaz. O sucesso é resultado de um alinhamento raro entre ética, política e operação técnica, liderado pela organização sem fins lucrativos Pangea Trust, responsável pela concepção e gestão do santuário.
O pioneirismo de Portugal na proteção animal e o novo santuário de elefantes
A proibição do uso de animais selvagens em circos, estabelecida em Portugal em 2018, encontrou na criação do Santuário do Pangea a solução para a “última milha” da legislação: o destino dos animais. Kate Moore, diretora-geral do Pangea Trust, destacou ao Diário de Notícias que “os maiores desafios à implementação de leis de proibição em qualquer país são a vontade política e a capacidade de alojamento em santuários. Portugal teve ambos”.
A colaboração entre o Pangea Trust e as autoridades portuguesas, como o ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas) e a DGAV (Direção-Geral de Alimentação e Veterinária), foi fundamental. Moore ressaltou o apoio “incrivelmente prestável e minucioso” dessas instituições, que deixaram claro desde o início que a lei seria cumprida. A prontidão do santuário em receber Julie permitiu uma via cooperativa, priorizando o bem-estar do animal.
A implantação do Pangea em território português, entre os concelhos de Alandroal e Vila Viçosa, é apoiada por uma rede internacional de parceiros, incluindo a Born Free Foundation, a Fondation Brigitte Bardot, o Olsen Animal Trust e a World Animal Protection (Dinamarca). Esses apoios formais sublinham o caráter global e a importância do projeto para a causa animal.
O Santuário do Pangea: um refúgio de 400 hectares no coração do Alentejo
O novo lar de Julie redefine o conceito de “reforma” para um animal de sua magnitude. Estendendo-se por 400 hectares – uma área equivalente a 560 campos de futebol ou nove vezes o tamanho do Estado do Vaticano –, o santuário é quase 4,5 vezes maior que o conhecido Badoca Safari Park. Contudo, sua filosofia é diametralmente oposta à de um zoológico ou safari tradicional.
Kate Moore enfatiza que “o Pangea não está aberta a visitantes. Este é um espaço de santuário puro, onde os elefantes definem o ritmo dos seus próprios dias”. A rotina de décadas de viagens e apresentações circenses será substituída por autonomia total. Julie e Kariba, outra elefanta que chegará em breve, terão liberdade de movimento 24 horas por dia, entre o pavilhão de abrigo e os cercados exteriores, com centenas de hectares de habitat natural para caminhar, procurar alimento e descansar como desejarem.
A vasta escala do terreno é crucial para a saúde de um elefante. Estes animais podem percorrer dezenas de quilómetros diariamente na natureza, e no Alentejo, Julie terá finalmente o espaço necessário para expressar esses comportamentos naturais. O ecossistema biodiverso foi cuidadosamente preparado para suportar tanto os elefantes quanto a vida selvagem nativa da região, garantindo um ambiente equilibrado e seguro.
A cura pela companhia: Julie e Kariba juntas em um novo lar
Elefantes são animais profundamente sensíveis, inteligentes e, acima de tudo, sociais. O isolamento representa uma das formas mais severas de sofrimento para eles. Por isso, a chegada de Kariba, uma elefanta vinda de um jardim zoológico belga, é considerada o “coração” da missão do Pangea. Ambas as elefantas viveram sozinhas por períodos consideráveis: Julie após a morte de sua última companheira de circo em 2024, e Kariba em seu antigo lar na Bélgica.
“Trazer as duas para o mesmo espaço é a essência do que estamos a fazer”, explica a diretora-geral do Pangea. A introdução será gerenciada com extrema cautela por uma equipe de especialistas em comportamento, respeitando o tempo de cada animal. O objetivo não é apenas colocá-las no mesmo terreno, mas permitir que reconstruam os laços sociais que são fundamentais para o seu equilíbrio psicológico e bem-estar.
O impacto desta operação transcende as fronteiras nacionais. Estima-se que existam mais de 600 elefantes em cativeiro por toda a Europa, muitos em condições que já não se alinham com os padrões éticos e legislativos modernos. Com uma capacidade total para acolher entre 20 a 30 elefantes, o Pangea reconhece que não pode ser a única solução, mas aspira a ser uma “prova de conceito” que inspire outros países a desenvolverem iniciativas semelhantes. “O que esperamos fazer é demonstrar um modelo que funcione e criar ou inspirar mais capacidade de santuários ao longo do tempo. Já estamos em conversações com várias instituições europeias”, confirma Kate Moore.
Do picadeiro à liberdade: a evolução do circo e o papel da arte
A artista plástica Joana Vasconcelos, uma das figuras portuguesas mais internacionais e embaixadora do Pangea, desempenhou um papel diplomático crucial na concretização deste acordo. Sua mensagem não é de condenação ao passado, mas de celebração do futuro. “A Julie marca o fim de um longo capítulo. Sejam quais forem os nossos sentimentos perante esta mudança, a lei evoluiu e nós também temos de evoluir”, afirmou.
Vasconcelos fez um apelo claro ao público português: “O meu convite é para olharmos em frente: para honrarmos a extraordinária mestria, a arte e o património cultural que o circo representa. Vão ao circo. Deixem-se maravilhar. Façam parte desse futuro onde o talento humano é o centro do espetáculo.”
O Circo Vítor Hugo Cardinali, fundado em 1987 e reconhecido pela sua longevidade e qualidade, continua sua digressão por Portugal em 2026. Agora, livre de animais selvagens, a instituição foca-se na renovação de sua tradição, provando que a arte circense pode prosperar através da destreza, do humor e da criatividade humana. Enquanto isso, sua “antiga estrela”, Julie, inicia finalmente sua merecida reforma sob o sol do Alentejo, em um ambiente de liberdade e dignidade.
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