Crise imobiliária em Lisboa exige quase oito anos de salário para compra de imóvel

Crise imobiliária em Lisboa exige quase oito anos de salário para compra de imóvel

O peso do custo da habitação no orçamento das famílias

O acesso à habitação em Portugal atravessa um momento de tensão sem precedentes, marcado por um desequilíbrio estrutural entre a valorização dos imóveis e o poder de compra dos cidadãos. Um estudo recente da consultora imobiliária CBRE, divulgado na terça-feira, 5 de maio, coloca números concretos sobre esta dificuldade: em 2024, o salário médio líquido no país fixou-se em 1266 euros, enquanto a avaliação bancária mediana atingiu os 1721 euros por metro quadrado.

Este cenário torna-se ainda mais desafiante quando observamos a realidade da capital portuguesa. Em Lisboa, onde a pressão imobiliária é mais intensa, o custo por metro quadrado alcançou os 2523 euros. O impacto prático desta valorização é direto: são necessários cerca de 90 meses de salário médio para adquirir um imóvel de apenas 50 metros quadrados. Para efeito de comparação, em 2011, o mesmo objetivo exigia 61 meses de rendimentos, evidenciando um agravamento acentuado na última década.

Escassez de oferta e o descompasso na construção

A raiz deste problema, segundo a análise da CBRE, reside em um desajuste crônico entre a produção de novas habitações e a demanda do mercado. Em 2024, o país registrou apenas 27 mil novas casas construídas, um número que contrasta drasticamente com as 170 mil novas vendas realizadas no mesmo período. Este volume de construção está muito aquém das 113 mil unidades observadas no ano 2000, o que limita a oferta e pressiona os preços para cima.

Curiosamente, o problema não parece ser a falta de edifícios, mas sim a sua utilização. Portugal detém um dos maiores parques habitacionais por agregado familiar do mundo, com um total de 5,97 milhões de alojamentos para 4,1 milhões de famílias. Contudo, cerca de 31% deste estoque não é utilizado como residência primária. Nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, essa taxa de ociosidade ronda os 20%, um potencial habitacional que permanece subutilizado devido a um histórico desincentivo ao mercado de arrendamento.

Caminhos para a estabilização do mercado

Para reverter este quadro, a consultora aponta a necessidade de uma reforma profunda nas políticas de habitação. O foco central deve ser a criação de um quadro regulatório e fiscal estável, capaz de devolver a confiança aos proprietários e incentivar a colocação de imóveis no mercado. A simplificação dos processos de licenciamento é apontada como uma medida vital para reduzir a fricção burocrática e acelerar a oferta de novas unidades.

Além da desburocratização, a estabilidade fiscal e uma maior celeridade na resolução de litígios judiciais são consideradas condições essenciais para atrair investimento e dinamizar o setor. A busca por soluções passa, inevitavelmente, por equilibrar a proteção social com a viabilidade econômica, garantindo que o mercado possa responder com mais agilidade às necessidades demográficas atuais. Para aprofundar o conhecimento sobre este e outros temas que impactam o dia a dia em Portugal, continue acompanhando as reportagens do Mais 1 Portugal, o seu portal de informação relevante e atualizada.

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