Proposta de lei para retorno de imigrantes em Portugal gera alertas de inconstitucionalidade

Proposta de lei para retorno de imigrantes em Portugal gera alertas de inconstitucionalidade

Uma nova proposta legislativa do Governo português, que visa reformular a política de retorno de imigrantes que entraram ilegalmente no país, tem gerado um intenso debate e levantado sérias preocupações quanto à sua constitucionalidade e conformidade com o direito internacional. A iniciativa, que será discutida no plenário de 15 de maio, busca revisar a legislação que define quem pode permanecer em território nacional e a quem pode ser ordenada a saída, marcando um ponto crucial na agenda migratória do país.

O Executivo, liderado por Luís Montenegro, propõe alterações significativas, como o alargamento do período de detenção em Centros de Instalação Temporária (CIT) de 60 para 180 dias. Além disso, a proposta prevê que a Polícia de Segurança Pública (PSP) assuma o papel de autoridade central na política de afastamento de estrangeiros. Estas medidas, apresentadas como um esforço para fortalecer a ordem e o humanismo na gestão migratória, encontram-se sob escrutínio de diversas entidades e partidos políticos.

As Propostas do Governo e as Agendas Políticas em Jogo

A iniciativa governamental não surge isolada no panorama político português. O partido Chega, por exemplo, também avança com um projeto de lei que visa reforçar o controlo das fronteiras externas e a permanência de cidadãos estrangeiros, estabelecendo um regime mais restritivo para a concessão de asilo. Por outro lado, o Livre apresenta duas propostas – um projeto de lei e um projeto de resolução – que defendem a proibição da detenção em CIT de pessoas vulneráveis, como menores, famílias, vítimas de violência e indivíduos LGBTQIA+, buscando assegurar que estes grupos nunca sejam privados de liberdade.

O alargamento do período de detenção para 180 dias é um dos pontos mais controversos. Enquanto o Governo justifica a medida como necessária para o processo de retorno, críticos apontam para os riscos de violação de direitos fundamentais e para a falta de capacidade material e humana de Portugal para gerir detenções prolongadas. A deputada do Chega, Cristina Rodrigues, em declaração ao DN, reconheceu que “Portugal não tem essa capacidade”, defendendo que “as pessoas devem aguardar na origem o resultado dos recursos que eventualmente façam”.

Alertas de Inconstitucionalidade e Violações Internacionais

Após a apresentação da proposta de lei no Parlamento, o Conselho Português para os Refugiados (CPR) e o Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais (CSTAF) emitiram pareceres que levantaram sérias dúvidas sobre a compatibilidade da iniciativa com o direito internacional e a Constituição portuguesa. O CPR, por exemplo, alertou que a remoção da suspensão de procedimentos administrativos ou criminais por entrada irregular, mesmo com a ressalva de não execução da decisão de afastamento até a conclusão do processo de proteção internacional, “coloca em causa o princípio e garantia fundamental de não penalização por entrada irregular previsto pelo artigo 31.º da Convenção de Genebra, constituindo uma clara violação das obrigações de Portugal”.

O CSTAF, por sua vez, manifestou preocupação com a retirada do efeito suspensivo dos recursos, o que poderia comprometer o direito constitucional a um recurso efetivo e, potencialmente, levar a afastamentos ilegais antes de uma decisão judicial definitiva. Segundo o CSTAF, as propostas de alteração legislativa “parecem afrontar o artigo 46.º da Diretiva 2013/32/UE”, tornando-as “uma interpretação desconforme”. Apesar das críticas, a deputada Cristina Rodrigues do Chega defendeu que “a eliminação do efeito suspensivo e aceleramento dos afastamentos não contraria a Convenção de Genebra”.

O Debate sobre Capacidade e Humanismo na Imigração

A discussão sobre a capacidade de Portugal para gerir detenções prolongadas e a nova atribuição de competências à PSP na área da imigração e asilo são centrais no debate. O Ministério da Presidência, tutelado por António Leitão Amaro, defende que a iniciativa legislativa “fortalece o vínculo entre ordem e humanismo”, encerrando um “pacote de medidas legislativas para regular a imigração”. O Governo, em comunicado enviado ao DN, afirmou que “com este novo regime, o Estado passa a ter instrumentos para poder fazer regressar aos países de origem quem chega a Portugal irregularmente”.

No entanto, o porta-voz do Livre, Rui Tavares, contesta essa visão, afirmando que “o Governo não está a encerrar puzzle nenhum”, mas sim seguindo “todas as agendas autoritárias e anti-imigração que estão agora na moda”. Tavares também criticou a atribuição de novas competências à PSP, lembrando que “as recomendações internacionais há muitos anos defendem que não sejam tratadas por polícias”. A transição do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) para a Agência para a Integração, Migração e Asilo (AIMA) foi “mal feita”, na sua opinião, mas “um erro não se corrige com outro erro”. A discussão sobre a capacidade de detenção é reforçada por notícias recentes, como a do DN, que aponta que o Governo planeia criar mais vagas para detenção de imigrantes com construções temporárias.

Contexto da Política Migratória Portuguesa

A proposta atual insere-se num contexto mais amplo de revisão da política migratória portuguesa, que tem sido marcada por desafios e controvérsias. A extinção do SEF e a criação da AIMA, embora com um princípio considerado correto por muitos, foram alvo de críticas pela forma como foram implementadas, gerando incertezas e dificuldades operacionais. A questão da Lei da Nacionalidade, mencionada pelo DN em seu questionamento ao Ministério da Presidência sobre um possível reforço da política seguida com a lei promulgada por António José Seguro, adiciona outra camada de complexidade à discussão sobre a coerência e os objetivos de longo prazo da política migratória do país.

A proposta de lei para o retorno de imigrantes, com suas implicações constitucionais e humanitárias, representa um momento decisivo para Portugal. O resultado das discussões parlamentares e a forma como o país irá conciliar a necessidade de controlo de fronteiras com o respeito pelos direitos humanos e as obrigações internacionais serão cruciais para a sua imagem e para o futuro de milhares de pessoas que buscam refúgio e uma nova vida em território português.

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