No Parlamento, começou o debate do Orçamento do Estado, tema que na Comunicação Social já há muito tempo gera intensas discussões. Da opinião publicada, muita reflecte apenas interesses políticos, partidários ou corporativos, esquecendo uma análise verdadeiramente séria e compreensiva do documento e descurando uma apreciação global dos seus objectivos e da coerência das políticas propostas.
Análises parciais existem para todos os gostos e setores da sociedade. A perspetiva do deputado surge ligada ao interesse partidário, enquanto a do contribuinte foca-se nos impostos a pagar. O autarca lamenta os fundos que não recebe, o burocrata critica as magras dotações do seu serviço, o funcionário aponta o diminuto aumento salarial e o sindicalista avalia a repercussão nos acordos colectivos.
perspetivas setoriais e o foco no défice
As reações estendem-se a outras áreas fundamentais da atividade pública. O agente cultural queixa-se das escassas verbas para as artes, e o defensor de um Estado interventivo aponta o dedo ao não aumento da despesa pública. Uns analisam o documento pela receita, outros pela despesa, e quase todos concentram-se no défice, esquecendo frequentemente que este indicador económico é apenas um simples efeito de políticas mais amplas.
Discutem-se recorrentemente as verbas atribuídas à investigação, muitas vezes consideradas baixas, mas raramente se aborda o número real de patentes ou de novos produtos que essas iniciativas conseguem originar. Como cada interveniente toma invariavelmente a parte pelo todo, o orçamento acaba por ser classificado como bom, sofrível ou mau consoante o seu problema pessoal ou corporativo específico é mais ou menos atendido ou ignorado pelas contas públicas.
o papel da comunicação social e o espetáculo mediático
Na rádio e na televisão, o debate público tende a privilegiar o espetáculo e a espetacularização. Convidam-se muitos comentadores em simultâneo, o que muitas vezes resulta numa cacofonia onde ninguém consegue explicar com profundidade as suas ideias. Quanto mais os intervenientes se atropelam no falar, mais vivo é considerado o programa e mais o formato resulta como entretenimento televisivo.
Neste ambiente mediático, enfatizam-se muitas vezes detalhes polémicos ou marginais, como a falta de verbas para serviços veterinários de animais de companhia ou para a proteção de aves migratórias, lobos e javalis. No meio deste desfile de casos particulares, perde-se muitas vezes de vista a discussão sobre o essencial da governação e das finanças públicas.
o desafio do crescimento económico e da sustentabilidade
O ponto central que frequentemente escapa ao debate público aprofundado é avaliar até que ponto o Orçamento realmente estimula o crescimento económico. Este crescimento continua a ser a única via segura para assegurar uma proteção social mais robusta e sustentável a longo prazo para toda a população.
Em sentido inverso, discute-se pouco se as contas públicas continuam a financiar tarefas em duplicado, a pagar atividades sem objetivos úteis conhecidos ou a cobrir serviços ineficientes que operam em circuito fechado. Afinal, para uma parte significativa da opinião publicada, o orçamento corre o risco de ser visto apenas como um instrumento que alimenta uma teia de dependências corporativas em relação ao Estado.
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