Pobreza em Portugal recua, mas desigualdades persistem e afetam milhões, aponta estudo

Pobreza em Portugal recua, mas desigualdades persistem e afetam milhões, aponta estudo

A taxa de risco de pobreza em Portugal registrou uma queda para 15,4% em 2025, o que corresponde a aproximadamente 1,66 milhões de pessoas. Essa é uma das principais conclusões do relatório “Portugal, Balanço Social 2025”, um estudo aprofundado produzido pelo Nova SBE Economics for Policy Knowledge Center e divulgado recentemente pela Fundação “la Caixa”, BPI e Nova SBE. Embora o país celebre a redução contínua da pobreza desde 2023, o documento revela um cenário complexo, onde os avanços não são uniformes e as desigualdades sociais e econômicas ainda representam um desafio significativo para milhões de portugueses.

O limiar de pobreza, estabelecido em 8.679 euros por ano ou 723 euros por mês, serve como um indicador crucial para dimensionar a parcela da população que vive em condições de vulnerabilidade. A análise detalhada do relatório sublinha que, apesar da melhoria geral, certos grupos demográficos e regiões continuam a ser desproporcionalmente afetados, evidenciando a necessidade de políticas públicas mais direcionadas e eficazes para combater as raízes da privação.

Desemprego e famílias monoparentais entre os mais vulneráveis

Apesar da redução geral no risco de pobreza, o estudo “Portugal, Balanço Social 2025” destaca que os efeitos dessa melhoria são desiguais. Os desempregados, por exemplo, enfrentam a taxa mais elevada de risco de pobreza, atingindo 42,6%. Este dado ressalta a intrínseca ligação entre a falta de emprego e a vulnerabilidade econômica, mesmo em um cenário de recuperação.

Outro grupo particularmente afetado são as famílias monoparentais, com uma taxa de risco de pobreza de 35,1%. A sobrecarga de responsabilidades e a frequentemente menor capacidade de geração de renda em lares com apenas um adulto contribuem para essa fragilidade. Além disso, o relatório aponta para uma maior exposição das mulheres à pobreza, com 16,3% em comparação com 14,5% dos homens, refletindo disparidades de gênero persistentes no mercado de trabalho e na distribuição de recursos.

Poder de compra em alta, mas desigualdade persiste

Uma das notícias mais animadoras do estudo é o aumento substancial do poder de compra médio dos portugueses. Nos últimos dez anos, entre 2014 e 2024, o rendimento disponível médio cresceu de 9.856 euros para 14.951 euros em preços correntes. Essa evolução se traduziu em um aumento real do poder de compra médio de 25,2% no período, um indicador positivo para a economia do país.

É notável que os estratos de rendimentos mais baixos registraram ganhos relativos superiores aos dos estratos mais altos, sugerindo um certo grau de convergência. Contudo, essa melhoria não erradicou a acentuada desigualdade de renda. Em 2025, os 10% mais ricos detinham quase oito vezes o rendimento disponível dos 10% mais pobres. Em 2024, o quartil superior da população concentrava cerca de 46,5% do rendimento nacional, enquanto o quartil inferior obtinha apenas 10,5%, evidenciando uma concentração de riqueza que continua a ser um obstáculo para a equidade social.

Privação material e condições habitacionais precárias

Apesar da diminuição geral, a privação material e social continua a ser uma realidade para uma parcela considerável da população portuguesa. Em 2025, 10,2% das pessoas viviam em situação de privação material e social, e 4,3% em privação severa. Essas condições se manifestam de diversas formas, impactando diretamente a qualidade de vida.

Entre os mais pobres, a privação em cuidados de saúde não cobertos pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS), como a medicina dentária, é significativamente mais elevada. As condições habitacionais também se mantêm precárias para muitos: em 2024, 33,4% dos agregados pobres suportavam custos com habitação superiores a 40% do rendimento, 30,9% não conseguiam aquecer a casa adequadamente e 17,3% viviam em alojamentos sobrelotados. Alarmantemente, quase 40,4% residiam em casas com danos estruturais significativos, revelando a urgência de intervenções neste setor.

Disparidades regionais e a vulnerabilidade de crianças e idosos

O relatório também aponta para disparidades regionais relevantes na distribuição da pobreza. A taxa de pobreza foi mais elevada no Alentejo, com 17,9%, e nos Açores, com 17,3%, enquanto a Grande Lisboa registrou a menor prevalência, com 12,2%. A privação material e social é particularmente acentuada nas regiões autónomas, com os Açores apresentando 17,4% e a Madeira 15,1%, indicando desafios específicos para estas áreas.

Crianças e idosos continuam a ser os grupos etários mais expostos à pobreza. Em 2024, havia 301 mil crianças e 541 mil pessoas com mais de 65 anos a viver em situação de pobreza. A taxa de risco de pobreza infantil atingiu 17,8% em 2024, e as crianças pobres exibiram níveis de privação muito superiores nas dimensões educacionais, habitacionais e alimentares, comprometendo seu desenvolvimento e futuro. A intensidade laboral baixa também é muito mais frequente entre agregados pobres, contribuindo para a vulnerabilidade econômica.

O papel crucial das transferências sociais na mitigação da pobreza

O estudo “Portugal, Balanço Social 2025” sublinha de forma enfática o papel indispensável das transferências sociais na mitigação da pobreza. Sem as transferências monetárias, excluindo as pensões, a taxa de risco de pobreza teria subido substancialmente. Em um cenário hipotético sem quaisquer transferências, a taxa teria saltado de 16,6% para 40,3%, demonstrando o impacto protetor dessas políticas.

As pensões de velhice são a transferência mais difundida, beneficiando cerca de 26,2% da população. No entanto, o relatório observa que a maioria das mulheres beneficiárias recebe pensões nas faixas mais baixas, um ponto que merece atenção na formulação de políticas de equidade. O documento, que se apoia em fontes como o ICOR 2024 e 2025, o Eurobarómetro de outono de 2024 e inquéritos do INE, IEFP e Segurança Social, oferece uma visão abrangente e multifacetada da realidade social portuguesa.

O cenário da pobreza em Portugal, conforme detalhado pelo “Balanço Social 2025”, é de progresso em algumas frentes, mas de persistência de desafios estruturais. A redução do risco de pobreza é um avanço, mas a manutenção de profundas desigualdades, a privação material e as vulnerabilidades de grupos específicos exigem atenção contínua e políticas públicas robustas. O Mais 1 Portugal continuará a acompanhar e aprofundar a discussão sobre temas tão relevantes para a sociedade, trazendo informação de qualidade e contextualizada para nossos leitores. Acesse a fonte original aqui para mais detalhes sobre o relatório.

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