O Governo português anunciou, na última sexta-feira, 8 de maio, a intenção de reformular os critérios da tarifa social de energia. A medida, apresentada em Lisboa pelo secretário de Estado da Energia, Jean Barroca, durante a divulgação da Revisão da Política Energética de Portugal 2026 pela Agência Internacional de Energia (AIE), visa assegurar que o apoio chegue exclusivamente aos cidadãos que “verdadeiramente precisam” do benefício. A iniciativa, que já consta no programa governamental, busca corrigir distorções no sistema atual, que hoje abrange mais de 700 mil beneficiários e representa um impacto anual de quase 250 milhões de euros.
A Necessidade de Reavaliar os Critérios da Tarifa Social de Energia
Jean Barroca enfatizou que a revisão da tarifa social de energia é uma prioridade e será implementada “a seu tempo”. O secretário de Estado destacou uma particularidade do modelo vigente: a impossibilidade de o beneficiário solicitar ou renunciar à tarifa, o que, segundo ele, gera situações paradoxais. O principal problema apontado reside nos critérios de acesso, que permitem que indivíduos com “abastados rendimentos”, incluindo alguns estrangeiros que não declaram impostos em Portugal, usufruam automaticamente do subsídio.
Apesar de identificar essas falhas, Barroca fez questão de esclarecer que não se trata de uma acusação de fraude ou de conduta irregular por parte dos beneficiários. “Eu não falei de fraude. E eu não disse que alguém tivesse cometido algo errado”, afirmou, sublinhando que “o problema está nos critérios, não está nas pessoas. Eu não estou a culpar ninguém por receber as tarifas”. O governante chegou a mencionar casos de beneficiários que contatam o Governo para pedir o cancelamento do apoio, evidenciando a percepção de que não necessitam da ajuda.
A preocupação com a justiça na distribuição do benefício é reforçada por dados comparativos: Portugal, em números absolutos, possui mais beneficiários da tarifa social de energia do que a Espanha. Este cenário, conforme Barroca, “deve ajudar” na reflexão sobre a adequação do modelo atual. A abordagem para a revisão não será individualizada, ou seja, não haverá uma reavaliação “um a um” dos beneficiários. Em vez disso, o foco será na redefinição dos critérios para garantir que sejam justos e eficazes na identificação do público-alvo.
Recomendações da AIE e o Cenário Energético Português
A Agência Internacional de Energia (AIE) também contribuiu para o debate, apresentando recomendações específicas para a tarifa social. A agência sugeriu que o apoio seja associado a limites de consumo em quilowatt-hora (kWh) e que o financiamento do benefício passe a ser custeado diretamente pelo Orçamento do Estado, em vez de continuar a ser suportado através da fatura de eletricidade.
Durante a conferência, a diretora executiva adjunta da AIE, Mary Burce Warlick, elogiou o progresso notável de Portugal no campo das energias renováveis. O país aumentou significativamente sua capacidade eólica e solar, atingindo uma impressionante quota de 81% na produção elétrica mensal em janeiro. Jacques Warichet, analista da AIE, destacou que Portugal se encontra em uma posição favorável em comparação com outros países europeus na atual crise energética, justamente devido à forte presença de renováveis em seu sistema elétrico. Segundo Warichet, em 2025, o gás natural definiu o preço da eletricidade em Portugal em apenas cerca de 30% das horas, um valor inferior ao de nações como Alemanha e Itália. “O único país na Europa que está melhor do que Portugal é a França”, afirmou o analista.
Desafios e o Futuro da Política Energética
Apesar do avanço nas renováveis, Jean Barroca ressaltou que Portugal não pode abandonar o gás natural “de um dia para o outro”. O combustível fóssil ainda desempenha um papel crucial na segurança de abastecimento, sendo as centrais de ciclo combinado necessárias em períodos de menor produção hídrica, solar ou eólica.
Além das sugestões para a tarifa social, o relatório da AIE apresentou outras dez recomendações a Portugal, que incluem a retirada de encargos não energéticos da fatura de eletricidade, o incentivo à compra de veículos elétricos usados por famílias de baixos rendimentos e um planejamento mais proativo das redes de distribuição. Essas recomendações visam apoiar Portugal nos próximos estágios de sua transição energética, promovendo maior coordenação entre investimento, infraestruturas, consumidores e a acessibilidade dos preços.
A reforma da tarifa social de energia, portanto, insere-se em um contexto mais amplo de otimização e modernização da política energética portuguesa, buscando não apenas a sustentabilidade ambiental, mas também a justiça social e a eficiência econômica.
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