Ruanda mantém forças em Cabo Delgado e critica postura da União Europeia

Ruanda mantém forças em Cabo Delgado e critica postura da União Europeia

A continuidade das operações em Cabo Delgado

O governo do Ruanda confirmou oficialmente que manterá o seu contingente militar na província de Cabo Delgado, em Moçambique. A decisão ocorre em um momento de mudança na estrutura de financiamento das operações de combate ao terrorismo na região, que enfrenta insurgência armada desde 2017. O ministro dos Negócios Estrangeiros ruandês, Olivier Nduhungirehe, reforçou que a colaboração entre Kigali e Maputo permanece sólida e estratégica para a estabilidade local.

A presença das forças ruandesas, que atuam a convite do governo moçambicano desde 2021, tem sido fundamental para a retomada de atividades econômicas e sociais em áreas anteriormente dominadas por grupos extremistas. Com o fim do suporte financeiro direto da União Europeia (UE), que totalizou 40 milhões de euros ao longo de três anos, o governo de Moçambique assumirá agora a responsabilidade pelo custeio das operações, garantindo a continuidade do apoio militar necessário para proteger investimentos bilionários em Gás Natural Liquefeito (GNL).

Tensões diplomáticas e o papel da União Europeia

A manutenção das tropas ruandesas em solo moçambicano não está isenta de controvérsias diplomáticas. O governo do Ruanda manifestou publicamente o seu descontentamento com a forma como os pedidos de apoio financeiro foram tratados em Bruxelas. Segundo o chanceler ruandês, as solicitações foram recebidas com “relutância” e politizadas por diversos Estados-membros da UE, incluindo Portugal e Bélgica.

Para o governo ruandês, essa postura é contraditória, uma vez que a intervenção militar em Cabo Delgado permitiu que empresas europeias e americanas retomassem projetos de GNL avaliados em cerca de 50 mil milhões de dólares. O Ruanda argumenta que o Mecanismo Europeu para a Paz (MEP) cobriu apenas uma fração irrisória das despesas reais incorridas por Kigali na missão, classificando a resistência europeia como uma crítica irracional que ignora os benefícios econômicos diretos da estabilização da região.

Estratégia de financiamento e segurança regional

Com mais de 6.300 militares destacados no norte de Moçambique — um efetivo três vezes maior do que o inicial — o Ruanda defende a necessidade de um quadro de financiamento sustentável para operações de longo prazo. A porta-voz do governo ruandês, Yolande Makolo, foi enfática ao declarar que o país não solicitará novos fundos ao Mecanismo Europeu para a Paz, transferindo a responsabilidade das negociações financeiras para o governo anfitrião.

A transição para um modelo de financiamento assumido por Moçambique ocorre em um cenário geopolítico complexo. Além das tensões com a UE, o Ruanda enfrenta sanções aplicadas pelos Estados Unidos às Forças de Defesa do Ruanda (RDF) devido ao conflito na República Democrática do Congo. Apesar das pressões externas, Kigali sustenta que a sua prioridade em Cabo Delgado é a manutenção da paz, permitindo que famílias retornem às suas casas e que a infraestrutura regional seja reconstruída com segurança.

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