Stellantis assume falhas no motor 1.2 Puretech e enterra gestão de Carlos Tavares

Stellantis assume falhas no motor 1.2 Puretech e enterra gestão de Carlos Tavares

Num gesto pouco comum na indústria automóvel e que marca uma viragem evidente no rumo da Stellantis, o novo presidente executivo do consórcio, Antonio Filosa, dirigiu um pedido formal de desculpas aos clientes lesados pelos problemas registados no motor a gasolina 1.2 PureTech e pelas falhas associadas aos airbags da Takata.

Em declarações ao diário francês Le Parisien, à margem do Salão Automóvel de Paris, Filosa abordou de frente uma das maiores crises de reputação do grupo: “Em primeiro lugar, gostaria de lhes apresentar as nossas desculpas pelos problemas passados com que se depararam.”

Ruptura com a era anterior e foco na qualidade

Mais do que uma simples admissão de culpa, a intervenção do sucessor do português Carlos Tavares assinala uma rutura clara com a doutrina que definiu os últimos anos do grupo multinacional. Durante a liderança de Tavares, a Stellantis distinguiu-se pela obsessão na contenção de custos e pela preservação de margens operacionais recorde. Essa estratégia deixou marcas profundas na relação com a rede de distribuição, com os fornecedores e, sobretudo, com os clientes finais, frequentemente confrontados com recusas de garantia ou atrasos na assunção de defeitos de fabrico.

Com o intuito de estancar a perda de confiança que afetou marcas nucleares como a Peugeot, a Citroën e a Opel, Filosa revelou que a prioridade imediata da empresa passou a ser a fiabilidade. O gestor italiano anunciou a criação de cerca de uma centena de equipas dedicadas exclusivamente à resolução de problemas de qualidade, distribuídas por fábricas e centros técnicos na Europa e na América do Norte. Estas equipas reúnem diariamente engenheiros de desenvolvimento, fornecedores e responsáveis de produção para identificar falhas precoces e ajustar processos em tempo real.

Investimentos e desafios na reestruturação

De acordo com o executivo, este esforço conjunto terá permitido alcançar já uma melhoria interna da qualidade na ordem dos 30% desde o arranque de 2026. A nova orientação estratégica passa também por abdicar temporariamente de margens de lucro excessivas para devolver competitividade e acessibilidade ao portefólio, ao mesmo tempo que o grupo canaliza 60 mil milhões de euros para o lançamento de 60 novos modelos no âmbito do plano Fast Lane 2030.

Apesar da mudança de tom e da postura pública mais humilde do novo homem-forte da Stellantis, as declarações foram acolhidas com acentuado ceticismo junto dos proprietários e de comunidades especializadas do setor. Para muitos automobilistas, as desculpas surgem tarde e pecam pela falta de soluções práticas para quem já suportou avarias onerosas, mantendo-se dúvidas quanto à resolução definitiva dos problemas mecânicos.

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