Uma inovação tecnológica desenvolvida em Portugal, o PreemieTest, acaba de dar um passo significativo em sua missão global de combater a prematuridade, a principal causa de mortalidade neonatal em todo o planeta. Criado pela startup portuguesa Birthtech, com sede em Figueiró dos Vinhos, o dispositivo médico foi recentemente incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil, o maior serviço público de saúde do mundo, prometendo impactar positivamente a vida de milhões de recém-nascidos.
A entrada no SUS, equivalente ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) português, representa um marco para a tecnologia lusa, que já está presente em mais de duas dezenas de países. O PreemieTest oferece uma abordagem não invasiva e rápida para avaliar a maturidade da pele de bebés nas primeiras 24 horas de vida, preenchendo uma lacuna crucial nos protocolos clínicos tradicionais e oferecendo aos médicos informações vitais em segundos.
A Gênese de uma Inovação com Propósito Social
A trajetória da Birthtech e do PreemieTest começou de forma inusitada, longe das maternidades. O fundador da empresa, o brasileiro Rodney Guimarães, doutorado em astrofísica e ex-colaborador da Agência Espacial Europeia, dedicou anos à investigação científica. Contudo, a distância entre a academia e os problemas concretos da sociedade começou a gerar um desconforto profundo.
Em uma entrevista ao Dinheiro Vivo, Guimarães recordou o momento de viragem: “Alguns anos atrás eu estudava Quasar [objetos celestes a milhares de milhões de anos-luz de distância], mas perto do observatório onde eu trabalhava, havia uma mulher passando fome, morando na rua. Ficava inconformado com isso: nessas horas você percebe que a sua influência no dia-a-dia ou na melhora da vida das pessoas é zero”. Essa percepção o levou a reconfigurar sua carreira, buscando uma aplicação prática para a tecnologia na medicina.
O Desafio da Prematuridade e a Lacuna nos Diagnósticos
Anualmente, cerca de três milhões de recém-nascidos morrem em todo o mundo devido a complicações associadas ao nascimento prematuro, segundo dados levantados pela própria startup. O problema central que o PreemieTest busca resolver reside nas limitações dos marcadores tradicionais de prematuridade: a idade gestacional e o peso do recém-nascido. Esses indicadores, muitas vezes, falham em identificar com precisão a maturidade fisiológica do bebé.
Rodney Guimarães exemplifica a falha: “Você tem bebés com 40 semanas e peso acima de três quilos com os dois marcadores ótimos e, mesmo assim, o pulmão não está maduro”. Essa carência diagnóstica pode levar a decisões clínicas inadequadas, comprometendo a saúde e a sobrevivência dos bebés.
PreemieTest: Como a Tecnologia Transforma o Diagnóstico
A solução para essa lacuna surgiu de uma observação da obstetra Zilma Reis, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ela notou que a pele de bebés prematuros tende a ser translúcida, enquanto a de um bebé nascido a termo é mais opaca. O PreemieTest capitaliza essa diferença, utilizando luz para medir a translucidez da pele do bebé e convertendo essa medida em probabilidades clínicas compreensíveis pelas equipas médicas.
O dispositivo é capaz de indicar a necessidade de suporte de ventilador, o internamento em uma Unidade de Terapia Intensiva (UCI) neonatal e o risco de síndrome de dificuldade respiratória. Ensaios clínicos realizados com quase mil recém-nascidos demonstraram a eficácia da tecnologia, alterando o diagnóstico médico em um de cada cinco casos. Isso permitiu identificar bebés que precisavam de apoio respiratório mesmo quando os indicadores tradicionais apontavam estabilidade clínica. Além disso, o PreemieTest consegue medir o efeito dos corticosteroides administrados em grávidas com risco de parto prematuro.
Da Pesquisa à Produção em Solo Português
A prova de conceito do PreemieTest foi desenvolvida na Faculdade de Medicina da UFMG, em Belo Horizonte, após uma candidatura bem-sucedida ao programa Grand Challenge Exploration, da Fundação Bill & Melinda Gates. Com o tempo, o projeto transcendeu o universo académico e se transformou em uma startup, que se instalou em Portugal por recomendação de um amigo de Rodney Guimarães, que vive no país desde 2020.
A produção do equipamento foi transferida para território português após o parceiro industrial inicialmente previsto no Brasil abandonar o projeto. Em Portugal, a Birthtech encontrou parceiros estratégicos: a empresa Incredible, de Aveiro, ficou responsável pela componente ótica do dispositivo, enquanto a HFA assumiu a eletrónica. Outros parceiros em Maia e Águeda completaram a cadeia de produção. A operação foi estabelecida em Figueiró dos Vinhos, onde a empresa venceu um concurso público municipal para ocupar um espaço industrial que hoje serve como sede europeia de desenvolvimento e produção.
O financiamento total da Birthtech ronda os 500 mil euros, provenientes de investimentos públicos e privados. O programa PT2030, através do COESO, contribuiu para a contratação de pessoal, e a COREangels Atlantic investiu 250 mil euros em uma fase ainda pré-receitas, demonstrando confiança no potencial da inovação.
Expansão Global e o Impacto no Sistema Único de Saúde do Brasil
A Birthtech adota um modelo de negócio diferenciado, focando na colaboração com governos e organizações internacionais, em vez de vendas diretas a hospitais. A empresa mantém conversações com entidades como a Save the Children e os Médicos Sem Fronteiras, ampliando seu alcance humanitário. Embora a entrada plena no mercado europeu ainda dependa de um processo regulatório que pode levar até dois anos, a presença global do PreemieTest já é notável.
Atualmente, a tecnologia portuguesa está presente em mais de 20 países, incluindo Índia, Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e diversos mercados africanos, como Moçambique, Senegal, Burquina Fasso, Costa do Marfim e Angola, continente que a startup considera prioritário. No Brasil, o dispositivo foi incorporado ao SUS em fevereiro e estará disponível em maternidades públicas, inclusive em territórios indígenas, com uma escala potencial para atender três milhões de bebés por ano. Essa expansão reforça o compromisso da Birthtech em levar uma solução vital para as regiões mais necessitadas, transformando a luta contra a mortalidade neonatal em uma realidade mais promissora.
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