O desafio crescente do acesso à saúde pública
O Serviço Nacional de Saúde (SNS) enfrenta um cenário de pressão crescente no que toca ao atendimento especializado. Dados recentes divulgados pela Entidade Reguladora da Saúde (ERS) revelam que, no segundo semestre de 2025, as listas de espera para cirurgias nas áreas de oncologia e cardiologia sofreram um agravamento significativo. Este panorama coloca em evidência as dificuldades estruturais do sistema em responder à procura crescente por tratamentos críticos dentro dos prazos recomendados.
A monitorização realizada pela ERS, referente ao período encerrado em dezembro de 2025, aponta para um aumento no número de utentes que aguardam tanto por consultas de especialidade quanto por intervenções cirúrgicas. A análise detalhada dos números permite compreender a dimensão do desafio enfrentado pelas unidades hospitalares públicas, que lidam simultaneamente com a gestão de recursos e a necessidade de priorizar casos de maior gravidade clínica.
Oncologia: aumento de utentes e incumprimento de prazos
No setor da oncologia, a situação é particularmente sensível. No final de 2025, 8.215 utentes aguardavam por uma cirurgia oncológica, um crescimento de 9% em comparação com o ano anterior. Destes, 21,2% ultrapassaram o Tempo Máximo de Resposta Garantido (TMRG), um indicador que reflete um retrocesso de 4,0 pontos percentuais face a 2024. Este incumprimento foi mais notório nos casos triados como prioritários e normais.
Quanto às primeiras consultas com suspeita ou confirmação de doença oncológica, o número de utentes em espera atingiu os 8.874, um aumento de 3%. Embora a percentagem de utentes que excederam o TMRG tenha caído para 65,5%, o volume total de pessoas à espera continua a ser uma preocupação central para as autoridades de saúde. A atividade cirúrgica nesta especialidade também registou uma quebra de 3%, totalizando 34.771 intervenções realizadas no período.
Cardiologia sob pressão
A cardiologia apresenta um cenário igualmente complexo. O número de utentes à espera de uma primeira consulta nesta especialidade subiu para 28.234, um incremento de 8,4%. Apesar de uma melhoria de 11 pontos percentuais no cumprimento dos prazos legais em relação ao segundo semestre de 2024, a realidade é que 74,9% dos utentes ainda aguardam além do limite estabelecido.
Mais alarmante é o aumento na lista de espera para cirurgias cardíacas, que cresceu 39,5%, totalizando 2.703 utentes. Destes, 58,6% encontram-se em espera superior ao TMRG. A atividade cirúrgica de cardiologia também sofreu uma redução de 4,9%, atingindo 4.508 cirurgias, o que ilustra a dificuldade do sistema em manter o ritmo de resposta necessário para patologias que exigem intervenção célere.
Contexto nacional e o impacto no sistema
Para além das especialidades de oncologia e cardiologia, o sistema hospitalar público lida com um volume massivo de utentes. No final de 2025, mais de 1 milhão de pessoas aguardavam por uma primeira consulta noutras especialidades, um aumento de 17% face ao período homólogo. A atividade hospitalar, embora tenha demonstrado resiliência em anos anteriores, enfrenta agora um período de ajustamento onde o aumento da procura parece superar a capacidade de resposta instalada.
A monitorização da ERS serve como um termómetro essencial para a gestão do SNS. O acompanhamento rigoroso destes dados é fundamental para que as políticas públicas possam ser ajustadas, garantindo que a qualidade do atendimento não seja comprometida pela morosidade. O Mais 1 Portugal continuará a acompanhar de perto os desenvolvimentos sobre o acesso à saúde e as medidas tomadas pelas entidades competentes para mitigar estas listas de espera.